de Giada Maria Barcellona

Inauguramos esta secção de projetos de vanguarda feminista com “A Casinha da Felicidade”, um lugar onde o feminismo não só é bem-vindo, mas permeia também o dia-a-dia das pessoas que lá vivem. A comunidade feminista tem o seu centro de operações no Baixo Minho e vai crescendo.

Nos próximos números de REVIRADA falaremos com as demais integrantes para saber como chegaram a este projeto feminista e como decorre o seu processo pessoal e comunitário. Nesta etapa, pelo contrário, os protagonistas são a Núria e o Sérgio, que conceberam o projeto e deram os primeiros passos, entre dificuldades e alegrias.

A “criação” da Casinha

“Esta ideia de projeto surgiu pela necessidade de termos um espaço nosso, um espaço feminista”.

“Nós chegámos a esta casa por uma morte, a morte do meu pai. Eu (Núria) naquela altura procurava estabilidade, estando num espaço tranquilo e perto da natureza. Conhecia já o Sérgio, que é da Guarda, e como tínhamos esta casa vazia à disposição, que de repente ficava sem uso, decidimos vir para aqui. Era um espaço grande, com muitas oportunidades, mas não pensávamos muito nisso porque havia um luto familiar que viver. De facto, durante o primeiro ano passámos mais tempo em Vigo que aqui e não mudámos quase nada da casa. Não queríamos mover nada! Pensávamos que o nosso viver cá fosse uma solução provisória: durante algum tempo não deixámos de pensar em nos irmos embora. Pouco a pouco, passou o tempo e de repente reparámos que cada vez estávamos a viver mais tempo aqui e que se abriam novas oportunidades para ficar. Começámos a trabalhar a horta, a ter relações com a vizinhança, a conhecer espaços em que podíamos estar bem e demo-nos conta que estávamos à vontade.”

na horta

Abrir o espaço: mais do que uma casa familiar.

“A ideia surgiu aos poucos, pela necessidade de termos um espaço feminista. Depois de considerar as alternativas que havia perto de nós, demo-nos conta que não havia nenhuma realidade comunitária, nem atividades culturais em geral, que nos satisfizessem completamente. Queríamos um espaço onde agir, realizar cousas doutra maneira, satisfazendo ao mesmo tempo as normais necessidades económicas. Esta é uma zona de migração: toda a Galiza é, mas aqui é muito evidente. Todos os dias vemos pessoas próximas irem embora pela impossibilidade de satisfazer cá as necessidades económicas ou sociais mais básicas.

Durante mais dum ano fomos conhecer pessoas com quem compartilhámos projetos de futuro, além da mesma maneira de conceber a vida. Começámos então a juntar-nos e organizámos umas jornadas de motivação.

Foi uma oportunidade de reflexão onde falamos de necessidades e preocupações em relação à nossa vida aqui, na comarca. Existiam vários projetos emergentes: um de reciclagem de móveis e outros materiais, de teatro, de patchwork…

Nós também decidimos dar vida a um projetinho de cuidado corporal consciente e abrimos este espaço como ponto de encontro, para nos juntar, para ligar os projetos entre si e pensar também na sobrevivência económica dum modo coletivo. A nossa preocupação era enlaçar projetos de trabalho – inspirados na criatividade e na mudança social – com o âmbito pessoal.

Começámos a reunir-nos com atividades pontuais, a criar uma rede feminista. Organizámos aqui, na Casinha, umas jornadas de autoformação feminista com as companheiras minhotas e também fizemos outras jornadas de feminismo autónomo [1] a nível galego. Fomos abrindo a Casinha pela necessidade de gerar uma rede e, ao mesmo tempo, procurando responder a outras necessidades que existiam noutras partes do país: era importante que também companheiras de toda Galiza pudessem contar com este espaço. A seguir, também o Concelho começou a interessar-se um pouco mais por nós.”

A relação com a Administração.

“É positiva. Começámos a dar-nos a conhecer graças aos obradoiros de cuidado corporal consciente e a outros relacionados com a língua portuguesa, mas sobretudo graças a um projeto ecofeminista a nível europeu, no âmbito da Rede de Mocidade em Acçom[2]. Durante uma semana inteira oferecemos a nossa casa para acolher 20 pessoas vindas de várias partes da Europa e também daqui, de Tominho, para trabalhar sobre ecologismo social e feminismo. Foram todas experiências interessantes e reveladoras. Depois de vários dias vivendo com tantas pessoas, demo-nos conta da oportunidade de usar esta casa para estes fins, não é?”

jornadas na casinha

As primeiras experiências de espaço compartilhado.

“A Casinha tem quatro quartos com camas grandes, um salão, uma cozinha e três casas de banhos. Há também uma horta, um jardim e uma piscina: o essencial para toda e qualquer revolução! [ambos riem]. As primeiras experiências foram com uma companheira e um companheiro que precisavam dum espaço, durante alguns meses para empreender projetos individuais.

Pouco a pouco foram chegando outras companheiras, ligadas a movimentos sociais, que ficaram aqui algumas semanas. A partir destas experiências, começámos a pensar num projeto de vida comunitário, que fosse mais integral: que envolvesse não só partilhar casa, mas também um projeto de vida.

Foi durante umas jornadas de empoderamento [3], onde se trabalhou a autoerótica e autodefesa com Lésbicas Creando [4], que começámos a pensar que estas convivências de breve períodos, sem uma projeção de comunidade mais integral, ficavam já demasiado pequenas.”

Uma das normas do amor romântico hetero-patriarcal prescreve que a vida privada dum casal tem que ser “fechada”, “dedicada à família” e distinta do âmbito público. Como se um projeto político não pudesse compartilhar espaço físico com um projeto afetivo.

Como fazer para equilibrar estes dous âmbitos que parecem antitéticos?

“Nós temos um pacto de partida: a consciência que o nosso amor é político e que o nosso vínculo é estratégico. (riem). Falamos com frequência de que, além da nossa relação amorosa, o nosso maior projeto amoroso é a nossa luta. No meu caso é o feminismo, no caso de Sérgio é o sindicalismo, o movimento libertário. O nosso laço mais estreito é a transformação social e o desejo dum mundo melhor. O nosso amor surgiu em espaços sociais onde se trabalham processos de ocupação e recuperação de bairros, além de projetos comunitários, de agricultura ecológica e feminismo. Com efeito, na vida quotidiana pusemos em prática uma potente inversão de roles de género, já que eu sou quem se encarrega mais da economia física, e o Sérgio é o que se ocupa mais do lar, da gestão da casa. Neste caso, as condições económicas mais favoráveis eram as minhas: foi uma troca dos papéis tradicionais considerada muito transgressora numa vila como Tominho.É ela que trabalha fora e ele fica na casa e fai a comida! Neste contexto esta decisão foi revolucionária em si própria. Então, desde o princípio pensámos que a nossa luta estava acima de todo o resto: o meu amor mais romântico é a luta feminista, é o meu sonho, o meu desejo.”

As dificuldades maiores

“Quanto à vida na Casinha, umas das dificuldades maiores foi quebrar as questões de propriedade e espaço privado, de intimidade. Fomos experimentando para encontrar um equilíbrio entre espaço íntimo e espaço coletivo. Além disso, a mudança da cidade para o rural não foi fácil: durante algum tempo, duvidámos se fosse melhor voltar para a cidade. Encontrávamos dificuldades na relação com a vizinhança, que olhava com perplexidade e hesitação, não só a mudança de roles entre nós, mas também a nossa visão da vida, a vontade de termos uma horta cultivada em modo ecológico e a mesma decisão de ficar aqui a viver, procurando, com outras pessoas, alternativas de economia coletiva. Mas, com a passagem do tempo, chegaram as alegrias: a vizinhança conheceu-nos mais e agora temos uma relação ótima; chama-nos à porta, trocamos produtos e sabedoria no cultivo e quando vamos ao mercado já nos conhecem! Também ajudou o organizarmos cursos de cuidado corporal consciente e que todas as nossas iniciativas estejam a crescer: desde a horta que prosperou, até às mudanças na Casinha, que agora está cheia de pessoas. O feminismo está a pulular por aqui, apoiado por companheiras minhotas e doutras partes da Galiza: de repente esta casa assume uma identidade nova, de projeto comum, e isso graças às mesmas pessoas que passaram ou que ficaram durante algum tempo. Agora quase não é uma decisão nossa, mas das mesmas companheiras que influem nela.

Num momento tomas uma decisão, abres uma porta porque existe uma demanda externa. “Agora não dizem – acrescenta o Sérgio – que “vão passar dous dias na casa de Sérgio e Núria”, mas dizem que “vão dous dias à Casinha da Felicidade”. Cada vez mais gente começa a considerar este projeto como uma possibilidade real de comunidade. É um regalo e um ganho que estejam aqui num dia 30 mulheres e que ninguém saiba que esta casa pertence a alguém em concreto. Estamos aqui, esta casa é de todas para todas: a própria gente que participa dá à casinha este caráter comum sem tu dizeres nada.”

Se quiseres entrar em contato com a Casinha da Felicidade:

casinhafelicidade@gmail.com

No próximo número da REVIRADA, a segunda parte desta reportagem: o projeto em marcha, o pessoal que se juntou, a celebração do Ano 0 da Casinha e mais novidades.

Notas de rodapé

[1] “II° Encontro Feministas autónomas”

[2] Maigaia Intercambio Ecofeminista- Mocidade em Acçom

[3] Lésbicas Creando

[4] “https://www.facebook.com/LesbicasCreando”