de Mariola Mourelo

Fan Hongdan é da província de Huzhou, Zheijiang, perto de Shanghai, conhecida como a “cave” da China pela sua produtividade agrícola e riqueza tanto económica quanto de paisagens e história. Fan Hongdan saiu há 7 anos pela primeira vez fora do seu país à procura de trabalho e de conhecer mais sobre o mundo lusófono. Falamos com ela sobre a sua experiência no triângulo Ásia – África – Europa.

Como foi que saíste da China há 7 anos?

Foi só uma coincidência. Quando estava no quarto ano da licenciatura em jornalismo conheci um rapaz brasileiro e ele ensinou-me um pouco português.  Ao terminar a universidade não consegui trabalhar como jornalista. Na China o trabalho é muito duro e paga pouco. E depois encontrei uma empresa que estava a procurar pessoal que soubesse português e inglês para trabalhar em Angola. E aí consegui um trabalho na  área de administração.

E como foi chegar a Angola?

Antes de ir a Angola nunca estivera fora do país. E quando cheguei lá foi um choque. É  totalmente um outro mundo. No primeiro ano eu chorei tanto!  

A situação em Luanda é muito complicada. Não sou racista, mas sinceramente as pessoas que nascem e vivem toda a vida em Luanda são terríveis. Havia muitos assaltos, muita violência. Os trabalhadores locais que trabalhavam  na nossa empresa, faltavam ao trabalho e depois davam razões que eram ridículas. Nós tínhamos um advogado para tratar estes assuntos e mesmo chegou a receber mensagens tipo “vou-te matar”, coisas assim.

Também tínhamos alguns trabalhadores noutras províncias de Angola, em Huambo, Malanje… eram muito simpáticos. Ao falar português eu era quem lhes explicava como fazer as coisas. Eles falam um bocadinho de português, mas a sua língua é o Kikongo. Trabalham muito bem, como os chineses. Às vezes o sentia assim, mas não no mau sentido. Eles eram pagos três vezes mais se trabalhavam no fim de semana. Para eles não havia problema, para os trabalhadores em Luanda sempre havia problema.  

Pode ser que eles fossem das províncias e não houvesse lá tantas pessoas qualificadas, mas a comunicação entre nós era boa. Dava para nos compreendermos os uns aos outros. Aprendiam muito bem as novas técnicas para fazer o seu trabalho.  

E o que eles achavam  de uma mulher chinesa em  Luanda e a trabalhar lá com eles?

Não sei, nunca perguntei sobre isso, mas eles todos achavam que eu era uma menina, de 18 anos, mas eu já tinha 24-25. Acho que eles me achavam corajosa, coisas assim.

E  acreditavam que tu fosses capaz de trabalhar ali?

Esse era o problema, eu acho. Especialmente em Luanda. Eles não acreditavam que eu pudesse fazer esse trabalho. Eu estava todo o dia a organizar os horários deles e mandar-lhes as tarefas a fazer. Mas qualquer problema, ou  pequenino conflito que houvesse eles pediam pra ver o chefe, chefe, chefe! E era comigo com quem tinham de resolver. Também acho que era por causa da língua, porque naquele tempo ainda não dominava a língua bem. Era difícil comunicar-se com eles. E mesmo é aquela característica de luandenses não quero trabalhar e sempre quero descansar, sempre querem outros horários.

Como era morar lá? Conhecias muitas pessoas?

Uma característica das empresas chinesas é que sempre têm uma quinta grande,  constroem um prédio onde todos vivem juntos.

Eu acho que isso é um problema  porque assim nós não conseguimos conectar com os locais, não conseguimos misturar as culturas. Conheci alguns trabalhadores chineses que já trabalham lá havia 4 anos e nunca saíram fora da empresa. Eu não podia acreditar! Mas  era assim mesmo.

E como foi isso de que chegas-te a dormir num carro?

Sim. A nossa empresa encarregava-se da distribuição da eletricidade. Por essa razão tínhamos  obras fora da cidade. São as paisagens mais selvagens. Lá quase todos os trabalhadores são homens. Só eu sozinha, uma mulher. E no fim do dia eles todos a dormir num contentor, já assim adaptado como uma casa pequenina. E então eu dormia no carro sozinha. Mas só uma noite, duas noites, no início da obra. Eu ajudava com a informação geral tipo onde está o hospital, onde está a polícia, onde vocês podem comprar alimentação, estas coisas.

E depois de três anos decidiste ir embora de Luanda?

O contrato era por três anos. E também, eu não sei, no final já estava bem cansada. Em 2014 voltei para a China dois meses e depois a Coimbra para estudar português na universidade. De facto, logo de estar lá um tempo comecei a ter vontade de voltar a Angola porque conheci melhor a sua literatura por causa do estudo na Faculdade de Letras.

Gostaste de Coimbra?

Eu não sei mas foi como se eu já tivesse estado ali antes. Adaptei-me muito rápido. Fiquei namorada de Portugal, da cidade. Gostei muito da calma. Em Angola as pessoas parece que todo o dia estava em tensão. Em Coimbra as pessoas estão calmas. Nunca conhecera pessoas tão agradáveis.

Talvez há festas de mais por causa da Universidade.  Gosto das festas mas talvez não todos os dias.  De 7 dias numa semana, 4 noites são festa! E a Queima das Fitas? Nossa! Coimbra é a cidade que não dorme.

Estive lá até janeiro de 2016 ao terminar  o curso de português, e em Fevereiro regressei à China para o ano novo chinês.  Mas já ia com a ideia de procurar um trabalho em Portugal ou em qualquer país lusófono.

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E conseguiste um trabalho em Lisboa.

Sim. Estou a viver em Lisboa há quase 2 anos. Para quem fala bem português e chinês é fácil arranjar trabalho aqui. A parte má é que os salários estão mais baixos do que noutros países  europeus. Para mim tem sido uma experiência muito especial. Lisboa está próxima do mar e o tempo é super suave, nem quente nem frio demais, em comparação com a minha terra onde o clima é muito extremo. Ao ser a capital de Portugal a cidade é conveniente e há muita atividade para passar o fim de semana.

Mas Lisboa está cada dia mais na moda, no sentido do turismo, quero dizer. O custo da vida está cada dia mais caro, e os impostos em Portugal são mais altos do que noutros países europeus. Lisboa vai-se tornar um paraíso para os ricos e um inferno para os pobres e a população de nível médio. Também é por isso que não me sinto com vontade de ficar mais tempo nesta cidade. É igual em todo o lado na era atual. As pessoas de Lisboa já são muito diferentes do que as que conheci no norte de Portugal. São mais frias, mais afastadas as umas das outras. É hora de voltar ao lado da minha família.

Tiveste uns 7 anos bem intensos.

Gostei imenso deste tempo fora da China. Mesmo que houvesse momentos tristes, sinto que foi essencial para a minha vida. Fora da China consigo ficar bem afastada da sociedade chinesa, uma sociedade que é neste momento muito ansiosa. As pessoas ficam perdidas no dia a dia. Aqui consegui pensar melhor em que era mais importante na vida. Aprendi a ver as coisas com a mente mais aberta. Mesmo que não conseguisse compreender bem a outra cultura agora sei que há tantas possibilidades  como maneiras de viver no mundo.  E que há coisas comuns em todo lado do mundo, a simpatia, a bondade, a coragem…

Tinha saído da China e  não queria voltar lá porque de algum jeito  não gostava do mundo no que nascera e crescera. Em vez de tentar compreender e conviver com aquele mundo eu estava a fugir sempre. Mas com estes 7 anos de experiências aprendi que a melhor maneira  é tentar compreender um ao outro, sejam diferentes tradições, diferentes níveis, diferentes línguas, diferentes religiões…

E porquê regressas à China? Que vais fazer  lá?

Já não sinto necessidade de viver em Lisboa. Mas na China tenho a família, gosto de fazer-lhes companhia e  não tenho vergonha de dizer que também preciso da companhia deles. Neste momento a família é o mais importante na minha vida. O mundo está a ficar cada dia pequeno com o desenvolvimento técnico e em termos económicos posso trabalhar em Portugal mas há bastante probabilidade de que o capital seja chinês. Não gosto muito disso mas tenho de aprender a viver com esse mundo. Já não quero fugir mais. Com a coragem que adquiri nestes sete anos vou enfrentar esse desafio.  

Regresso à China.