de Mariola Mourelo

É possível no século XXI, no apogeu do neoliberalismo, onde o individualismo e consumismo regem as nossas vidas, a existência de comunidades universitárias autogeridas? É possível que estas sejam comunidades universitárias autogeridas “feministas”? Tudo é possível.
Nesta altura em que o estudantado de secundária esteve a se enfrentar às provas de acesso à universidade, os nervos e tensão por saber se vão conseguir uma vaga na especialidade e faculdade da sua eleição vão dar lugar à preocupação e tomada de decisões de procura de alojamento, financiamento, transporte, refeições, etc., que afetarão aquelas universitárias que iniciam não só uma nova etapa educativa mas também, a deslocação para uma outra cidade onde talvez vão viver pela primeira vez longe da proteção, tutelagem e pode ser controlo  familiar.
Noutras alturas as opções de alojamento e convivência na Galiza eram mais diversas podendo-se adequar mais facilmente à economia das que mais e menos tinham e permitir uma maior independência, convivência e interação político-social entre as universitárias, como podia chegar a ser a residência universitária do Burgo das Nacións dos anos oitenta em Compostela, onde se geraram grande parte dos movimentos estudantis, mas que com as “melhorias” de acondicionamento e maior controlo administrativo pôde perder esse carácter mais comunitário rebelde que a caraterizava. Hoje em dia o alojamento para estudantado tornou-se mesmo um negócio dificilmente assumível sem a ajuda de bolsas governamentais ou o apoio familiar. A habitação reduz-se a um quarto num apartamento com cozinha, casa de banho e em alguns casos sala de estar, se esta não é transformada no quinto ou sexto quarto, dando conta da pouca ou nenhuma importância que tem o convívio com as companheiras de casa. Prioriza-se a individualidade das moradoras com pouca ou nenhuma partilha coletiva além de despesas de eletricidade, Internet e similares.
No entanto, em Coimbra, como em outras cidades de Portugal, quer dizer a poucas horas da Galiza, existe uma outra opção que sobrevive desde há 6 séculos já como parte da legislação do país: as Repúblicas Estudantis.
Uma República? O que é isso? A primeira vez que eu escutei este nome ligado com a universidade não conseguia imaginar o que exatamente era isso? Depois falaram-me de que era um tipo de casa compartilhada de estudantes. Ok, como o que acontece normalmente. Mas também tinha qualquer coisa de serem parte duma rede a se interconectar entre elas e com uma ligação forte com a própria universidade. Isto continuava a ser um bocado confuso para mim.
Começou a ter mais interesse quando já mais à frente me falaram duma em particular que era de mulheres e feminista. O adjetivo feminista, rapidamente chama a minha atenção e quero conhecer mais sobre ela.
No ano passado enquanto estava a tirar um curso de português na Faculdade de Letras de Coimbra decidi achegar-me a esta república feminista para conhecer mais o que é que era isso. Lá conheci a Maria de Oviedo (Espanha) e a Bruna do Paraná (Brasil), que moravam com a Bia e o Thy de Portugal, sendo o Thy comensal-residente, é as três mulheres residentes permanentes, e em conversas com elas fui conhecendo mais sobre estas casas comunitárias de estudantes.
As Repúblicas Estudantis têm a sua origem no século XIV numa Coimbra que estava a liderar a constituição da academia de Portugal e do Brasil. Em 1309, dom Dinis, rei de Portugal e o Algarve, impulsionou a edificação de casas para o estudantado em que o arrendamento a pagar era determinado por uma comissão nomeada pelo Rei e formada por estudantes, é claro nessa altura apenas homens, e “homens bons” da cidade (cidadãos homens com poder e relevância). Com o tempo tornaram-se no que agora conhecemos como Repúblicas (do latim res publica “coisa pública”) conseguindo, em 1957, estatuto jurídico e uma regulamentação do seu funcionamento através do primeiro código de praxe. As Repúblicas estiveram também muito ligadas com os movimentos estudantis e de libertação dos anos sessenta.
A ideia daquela e que se mantém hoje em dia, é facilitar o financiamento do alojamento do estudantado através de rendas muito baixas, a vida em comunidade, a soberania e a democracia, pois costumam-se tomar as decisões por unanimidade e exige-se responsabilidade nas tarefas e gestão das “casas” por parte das pessoas a morar nelas.
No bairro da Sé Velha, que é onde estão as mais antigas das “casas”, próximo á localização inicial da Universidade de Coimbra, é onde se encontra a República das Marias do Loureiro.
Fundada em 1993, depois dum processo de legitimação tornou-se parte do Conselho das Repúblicas em 2003 com direito de voto e opinião. Nesta casa têm passado durante duas décadas diversas gerações de mulheres que têm contribuído para o movimento feminista da cidade. As suas paredes dentro e fora da casa estão cobertas de simbologia e referências ao feminismo, assim como imagens que nos contam de jeito visual a energia e atividade que foram acolhidas neste espaço de convivência e aprendizagem coletiva e feminista.

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As residentes verdadeiramente funcionam como uma comunidade que está em forte ligação com outras repúblicas, especialmente com a que têm mais próxima, a “Baco”, mista, com a qual partilham recursos, participam em atividades conjuntas, há afinidade sociopolítica, as duas são antipraxe, e com a qual chegam a partilhar visões feministas. Isto facilita enormemente o dia a dia da vida destas mulheres estudantes e feministas, ter uma comunidade dentro da casa e mais uma comunidade com as outras Repúblicas. Uma rede efetiva e real que é para muitas uma primeira experiência na organização ativa e direta do poder comunitário. Estão não só a aprender a matéria da sua especialidade académica mas também a crescer e se formar como pessoas responsáveis pela construção e manutenção da comunidade. Sem dúvida uma educação bem completa da que vão tirar muito proveito no resto da sua vida.
A refeição é talvez a tarefa de união mais evidente. A compra faz-se num serviço de venda de alimentação da universidade que possibilita a compra de grandes quantidades a um bom preço. A casa das Marias tem capacidade para até 8 pessoas, e há mais outras mulheres e algum homem que podem juntar-se à refeição apesar de não residir permanentemente com elas. Cozinha-se para todas, e é importante comunicar com antecedência se não tem possibilidade de chegar para comer para que a encarregada de fazer a refeição possa organizar-se e também por uma questão de respeito pois é e esta uma atividade de convivência com muito valor para as Repúblicas. A atividade feminista é uma base da casa e portanto procuram organizar eventos e participar com outros coletivos da cidade e de outras cidades. É habitual organizarem jornadas onde mulheres doutras repúblicas do pais ou também doutros países se achegam a Coimbra e onde ficam vários dias sendo a República quem provê de alojamento e espaço para cozinhar, comer e desenvolver as atividades a muito baixo custo ou custo zero. Todas sabemos o difícil que é conseguir espaços para fazer atividades e especialmente gerir o alojamento para as mulheres que vêm doutras localidades da Galiza ou de fora. Casas comunitárias como estas em que a renda é ínfima permitem uma coletivização dos recursos espetacular.

Contudo “As Marias” não foram a primeira República de Mulheres, já existia a “Rosa de Luxemburgo” fundada como casa comunitária em 1972, pela Fernanda Mateus mais conhecida como a “Bombista” militante do Partido Comunista. No entanto era nomeada como República Feminina e não foi até recentemente que se começou a definir em situações como feminista.

É fantástico, neste período académico de expansão e liberdade, poderem disponibilizar dum espaço próprio a um preço muito acessível, e com um sistema de acolhimento humano e de redução significativa das despesas de habitação habituais. É especialmente bom para mulheres jovens que normalmente têm mais dificuldades em viver dum jeito independente e que precisam dessa comunidade feminista com que contar no dia a dia da sua experiencia universitária e vital. Eu não posso imaginar ter esta possibilidade quando estava a estudar dum espaço a preço muito baixo onde chegar sozinha e poder já do minuto um ser parte duma comunidade feminista.
Parece assim à primeira vista tão singelo que não consegues compreender porque é que não é a regra em todas as cidades do mundo? E já até diria que não só para estudantes mas também para outros coletivos e pessoas de diferentes idades e situações. Mas pronto, a seguir a Maria fala-me também das dificuldades que estão a ter agora em Coimbra com o Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) de 2012 que está a afetar diretamente as Repúblicas e ameaça com fazer desaparecer este estilo de convivência universitária de mais de 6 seculos de vida. A Casa de Estudantes, por exemplo teve de fechar as portas depois de a renda ter passado de 12,5 para 764 euros mensais, um aumento do 6000%, tendo em conta que são casas muito antigas, em condições muito básicas e onde as residentes têm de assumir as reparações de que a casa precisar. Há várias repúblicas sob ameaça de despejo, outras a serem vendidas e algumas como a Rápo-Táxo e dos Fantasmas podem ser transformadas em apartamentos descritos pela imobiliária que gere a sua venda como “imóvel com história” no que seria o novo “turismo de experiência”. Ou seja Gentrificação!

A resposta contra a NRAU tem sido feita pelas residentes das Republicas desde o início mas o certo é que a diferente situação das casas faz complicado chegar a acordos que satisfaçam as necessidades de todas elas. A Maria mostra a sua preocupação por não serem capazes de chegar a mínimos acordos e conseguir fazer frente com força e já contra esta agressão neoliberal que sim está bem organizada e não perde um minuto em continuar a avançar no desmantelamento das centenárias casas comunitárias e fazer desaparecer assim não só um património material mas muito mais importante o património imaterial que supõem para Coimbra e Portugal inteiro, para futuras gerações de estudantes portuguesas e internacionais dos valores que representam as Repúblicas Estudantis.

Sentadas na sala de estar das Marias penso com tristeza na nossa fragilidade frente a um poderoso sistema que torna algo totalmente ilógico, como é desertificar de humanidade os espaços históricos e com vida das cidades, das vilas… em algo muito rapidamente aceite socialmente e executado politicamente em questão de meses, às vezes até horas. A casa das Marias é propriedade de Serviços de Açom Social da Universidade de Coimbra. Não têm aumento da renda, mas também nunca tiveram um aluguer muito baixo em comparação com outras casas. A sua situação é de momento estável mas quando a universidade quiser o prédio teriam de abandoar a casa.
A Maria e a Bruna falam da necessidade de dinamizar mais a casa, fazer mais atividade contínua, consolidar-se como espaço de encontro para as feministas da cidade. Há tentativas, através das redes, divulgar o trabalho que fazem, quem são… porque elas não são só uma casa onde viver mas são um projeto politico feminista e é parte da sua responsabilidade e interesse de estar numa República, nesta República. Também porque precisam de novas residentes para a casa. Elas estarão temporariamente, pois os seus estudos chegam a um fim, esta é a dinâmica natural das Repúblicas, e a casa vai precisar de mais pessoas que possam geri-la com responsabilidade e de acordo com a filosofia e códigos das Repúblicas. A Bruna está a fazer divulgação na Internet, já contactaram algumas meninas muito interessadas, mas para períodos de 3-4 meses, o que não dá para assegurar uma gestão a longo prazo. É um problema bastante frequente nas Repúblicas, a diminuição de residentes permanentes. Morar numa Republica proporciona uma comunidade sólida com que contar tanto a nível afetivo como económico, mas também requer compromisso e trabalho, e conhecer e participar do funcionamento do Conselho das Repúblicas. Nestes tempos em que parece haver uma apatia geral na sociedade portuguesa e com este crescente  individualismo dependente das instituições ou salários da empresa privada, reduziram-se as noutrora comunidades extensas, com inter-relação entre vizinhas, em troca de famílias globais de cada vez menor número de pessoas. Isto com certeza também influi a comunidade universitária e talvez seja uma das causas da falta de interesse por novas estudantes em ser parte das Repúblicas. Maria acha que é isto, mas também que “As Marias” tem de fazer-se conhecer, fazer esse trabalho de divulgação e contacto com novas estudantes. Não estar à espera de que elas venham mas sair à procura delas, manter a casa viva, com atividade, divulgar o feminismo, a filosofia da vida comunitária, é um jeito imprescindível para que o processo de achegamento de novas residentes seja mais efetivo.

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A Maria conta-me que um ato simbólico que sempre fazem as Marias quando se reúne o conselho das Repúblicas e leem a ata da assembleia anterior para ser aprovada, elas dizem que não a aprovam por estar escrita em masculino. É algo que faz demorar o início da assembleia e chateia mesmo as outras Repúblicas, mas elas continuam a fazer sempre, pelo menos para manifestar o seu desacordo com a linguagem machista utilizada. São pequenas ações, mas com pequenas ações consegue-se mais cedo que tarde mudar as coisas.
Depois dum ano de ter visitado a República das Marias do Loureiro, e já com a Revirada pronta para lançar o seu primeiro número, contacto novamente com a Bruna e a Maria, para saber como elas estão e reconfirmar alguns dados. A Bruna regressou há 6 meses ao Brasil e a Maria continuará na casa até Setembro. Neste momento estão a morar lá com a Maria, a Inês, o Cucu (um menino comensal-residente) e uma comensal que está já para se tornar residente.
Talvez tu é que vais ser a seguinte a entrar.

A República das Marias do Loureiro é uma casa comunitária estudantil de mulheres e feminista, onde procuramos construir um espaço libertário e igualitário.

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