O que aconteceria se um pequeno grupo de ativistas feministas autónomas algures se tornasse mundialmente famoso?

de Giada Maria Barcellona

Na Galiza, o feminismo histórico, ligado às organizaçons políticas, sindicais, de natureza e práxis coletivas, perdeu força em favor de grupos autónomos, mas, a nom ser por algumhas excepçons históricas, já há poucas organizaçons feministas independentes, com um forte ideário, com objetivos a curto e longo prazo e com propostas de políticas claras. O movimento feminista autónomo – ou seja, nom vinculados a partidos políticos ou sindicatos – está fragmentado, isolado, com contacto esporádico entre si e com dificuldade para organizar umha agenda conjunta.

O sistema capitalista é cada vez mais eficaz em piorar as condiçons de vida, eliminando direitos sociais e concedendo pequenos paliativos, vendidos como grandes avanços políticos. Os meios de comunicaçom e as instituiçons aceitam em teoria o feminismo institucional, mas nom perdem a oportunidade de ridicularizar, silenciar e dificultar o ativismo feminista. As ativistas som toleradas desde que se limitem a um feminismo diluído – “amigo dos homens” – que nom ofenda e que se mantenha na linha da paisagem política. Mas assim que elas levantam a voz, som cruelmente silenciadas, insultadas e denegridas.

Uma paisagem pouco animadora. O que aconteceria se um pequeno grupo de ativistas feministas autónomas algures se tornasse mundialmente famoso?

Fonte: Free Chinese Feminist Facebook

Fonte: Free Chinese Feminist Facebook

As cinco irmãs feministas (五名女权姐妹) ou Free the Five

Nove ativistas feministas fôrom presas em março de 2015, em Beijing, Guangzhou e Hangzhou. Por ocasiom do dia 8 de Março tentavam organizar umha actividade de sensibilizaçom contra o assédio sexual no transporte público. Tencionavam distribuir adesivos e folhetos nas linhas de transporte metropolitano. Antes de realizarem as actividades planeadas, fôrom detidas por “perturbar a paz e provocar distúrbios”. Quatro fôrom libertadas logo, enquanto outras cinco permanecêrom sob custódia durante 37 dias, o período máximo que a lei prevê antes de medidas definitivas.

Quem som elas?

Os meios de comunicaçom internacional difundírom extensa informaçom sobre estas mulheres. Som 李婷婷 (Li Ting Ting), também chamada 李麦子(Li Maizi), 武嵘嵘 (Wu Rong Rong), 王曼 (Wang Man), 韦婷婷 (Wei Ting Ting) e郑楚然 (Zheng Chu Ran). O New York Times de 4 de abril de 2015 apresenta umha breve mas significativa biografia. [1]

Som todas figuras conhecidas no ambiente académico e social do seu País, mas nom pertencem à Federaçom das Mulheres (妇女联合会), órgao oficial do Partido. Têm estudos académicos de género e experiência consolidada de ativismo em favor dos direitos das mulheres e GODI (LGBTQIA+). Som a geraçom de feministas que cresceu numha era – a da IV Conferência Mundial sobre as Mulheres – em que o discurso feminista teve um impacto enorme na China e se centrou na Declaraçom de Beijing e na Plataforma de Açom de Beijing.[2]

Em 2012, a 14 de fevereiro, em Pequim, 李婷婷 (Li TingTing) e 韦婷婷 (Wei TingTing), junto com outras ativistas, marchárom por umha rua movimentada comercial em Pequim, vestindo trajes de noiva salpicados de sangue falso. Levavam cartazes (“O amor nom é uma desculpa para violência“) que denunciavam a violência dentro das paredes domésticas [3]. Aqui podemos ver o vídeo da performance.

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Entre elas estava a famosa 肖美丽(Xiao Meili) que, noutra ocasiom, caminhou 2.000 quilómetros de Beijing a Guangzhou para denunciar a falta de políticas públicas para combater a violência sexual contra as crianças [4].

Xiao Mei li

Xiao Mei li

Em 2012 “Ocupe banheiros masculinos”, performance em Guangzhou também de 李婷婷(LiTingTing), juntamente com meia dúzia de ativistas, para sensibilizar a opiniom pública sobre o desequilíbrio entre o número de serviços higiénicos para homens e para mulheres na cidade.[5]

Occupy Men Bathrooms

Porque a detençom e a prisom?

Segundo a professora王政 (Zheng Wang[6]), o governo até agora demonstrou ser relativamente “aberto” para com o ativismo relacionado com as questons de género. Numha entrevista [7] a docente declarou: “Na China, os estudos de género podem datar-se por volta de 1980, mas houve umha paragem depois da supressom do movimento democrático de Tiananmen em 1989. Mais tarde, para voltar a ser “aceita” pela comunidade internacional, a China hospedou a IV Conferência Mundial das Mulheres e para isso, teve de aceitar a criaçom dum fórum de ONGs. Deste modo, o governo concedeu um “tratamento especial” para as ONGs sobre as questons das mulheres, ONGs que começárom a se espalhar na China. O ativismo feminista foi estreitamente relacionado com os estudos feministas. Confrontando esse ativismo com o trabalho da Federaçom de Mulheres (妇女联合会), podemos dizer que existem pontos em comum, tanto na ideologia como na prática, mas a diferença é significativa.”

Qual é esta diferença para que o governo decidisse prender e manter sob custódia um grupo de moças, cujas atividades nom pretendiam desafiar as autoridades governamentais e polas quais poderiam até mesmo receber o aplauso destas?

Até agora, o feminismo nunca foi um assunto tabu na China, porque as suas mensagens estavam em linha com as que marcava o governo, que se define “defensor dos direitos das mulheres”[8]. Na mesma entrevista, a professora Zheng recorda como o ativismo feminista sempre foi extremamente cauteloso em delimitar as suas atividades dentro dos limites prescritos pola lei chinesa, quer dizer, sem tocar as chamadas “questons sensíveis” (Tibete, casos de corruçom, o questionamento do sistema político, a liberdade de imprensa, Tiananmen, etc). As ativistas têm sido muito vigilantes contra esse envolvimento. “Pensavam que sabiam claramente onde estava o limite e como nom o ultrapassar”. No entanto, fôrom presas e, mesmo agora, após a sua libertaçom, som consideradas “elementos suspeitos” a ser controlados. Por quê?

As respostas dadas para explicar o comportamento das autoridades som variadas. Por um lado, a vontade do governo de limitar e controlar cada vez mais as ONGs e os outros grupos que realizam as suas atividades através de fundos estrangeiros (ex. a Fundaçom Ford). Uma lei recentemente aprovada aumenta o controlo do governo  sobre as ONG estrangeiras presentes no território da China, as universidades chinesas que recebem subvenções externas, etc. Na realidade, como lembra a professora Zheng Wang, “as associaçons estrangeiras, como a Fundaçom Ford, dam a maior parte do seu dinheiro a programas do governo chinês e nom aos grupos civis e às organizaçons nom governamentais.” Por isso, a decisom do governo pode responder simplesmente à vontade de silenciar a sociedade civil. Outras vozes falam dumha combinaçom entre vontade de dominaçom e paranóia governamental.[9]

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Consequências de detençom

O que é certo é que o governo nom esperava que a prisom e detençom das cinco  moças fosse causar um clamor nacional e internacional tam forte. Os seus nomes e rostos tornárom-se muito famosos graças ao ciberativismo, à grande campanha de solidariedade – Free the Five – espalhada através das redes sociais na China, em vários países asiáticos e no resto do mundo. Em muitas cidades chinesas, por exemplo, pessoas anónimas tirárom fotografias usando máscaras com a cara das cinco presas e várias organizaçons feministas, além de estudantes e trabalhadores, exigírom a libertaçom das cinco ativistas.

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Sucesso, fracasso, ou ambos?

As ativistas chineses usárom a performance como meio de açom. A sua mensagem é autónoma, independente do governo, e baseia-se em redes informais e redes sociais como ferramentas de difusom. O seu efeito sobre o sistema, o mundo académico ou os meios de comunicaçom é limitado [10]”. A sua detençom foi o seu desempenho o mais bem sucedido até a data” [11].

Sophie Richardson, diretora do China Human Rights Watch, disse que as cinco feministas detidas atraírom muito mais atençom internacional do que as dezenas de ativistas chineses que fôrom detidos nos últimos dous anos por questons políticas [12]. O absurdo da detençom ajudou a aumentar o interesse do público chinês sobre o feminismo.[13]

Protestos Free the Five

Mas, ao mesmo tempo, é a prova dumha falha. Analistas dizem que a tentativa do governo de desfazer o ascendente movimento feminista representa umha prova da guerra contra o ativismo de base do Partido Comunista, uma campanha promovida pelo presidente Xi Jinping, que chegou ao poder em novembro de 2012.

As cinco ativistas tornárom-se de repente um inimigo público do Estado: neste momento, embora livres, som controladas [14]. Há um par de meses a polícia recusou o arquivamento do caso e a sua vida profissional e pessoal continua a ver-se ameaçada.

E aqui, entre nós? Será que há tanta diferença entre este caso e a situaçom do feminismo galego? À primeira vista  diríamos que sim.

Como dixo 李麦子(Li Maizi), o que aconteceu serviu para mostrar ao mundo que o ativismo feminista na China existe e – acrescentaria eu – para mostrar também que a pressom da opiniom pública, através do ciber-ativismo, pode marcar a diferença entre a invisibilidade e uma existência eficaz. Fazer parte de pequenos grupos, ser politicamente autónomas, construir e manter redes de apoio, de comunicaçom, produzir ideias concretas e realizar açons com estratégias autónomas, ainda que sejam micro, basta tudo isto para fazer a diferença? Ou entom, só quando somos agredidas ou detidas, obterá o feminismo a  atençom pública que merece?

Grande é a tentaçom de nos converter em inimigas públicas para ganhar o papel de interlocutoras válidas. Sería isso umha alternativa válida ou, polo contrário, confirmaria o jogo do sistema, armado hoje com instrumentos legais ainda mais autoritários e repressores? Se continuamos dentro do sistema e nom o impugnamos, quais as melhores estratégias para ganharmos espaço de açom?

Aqui as palavras de Zheng Chu Rang e Li Ting Ting há uns meses, no aniversário da detençom:

Zheng Chu Rang

Zheng Chu Rang

Li Ting Ting

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[1] http://www.nytimes.com/interactive/2015/04/06/world/asia/06chinadetain-3.html

[2]http://chinachange.org/2015/04/12/detention-of-five-chinese-feminist-activists-at-the-juncture-of-beijing20-an-interview-with-professor-wang-zheng/

[3]https://www.youtube.com/watch?v=tr6Zo4u21KU

[4]http://time.com/1778/in-china-a-young-feminist-battles-sexual-violence-step-by-step/

[5]As casas de banho públicas femininas som muito poucas e sempre se formam longas filas. A Organizaçom Mundial de Saúde estima que dezenas de milhões de chinesas nom têm acesso a casas de banhos públicas. Um relatório de 2010 da OMS estima que 45 por cento dos chineses nom tinham acesso a instalações sanitárias.

As ativistas estacionárom em frente dum banho público de Guangzhou e, em intervalos regulares, parárom os homens que queriam entrar nas casas de banho e envirárom as mulheres a usar as dos homens. A açom terminou despois dumha hora sem problemas. O governo municipal de Guangzhou revelou, alguns dias depois, ter melhorado a relaçom entre casas de banho masculinas e femininas, numha proporçom de 1: 1,5. Em suma, como mais tarde relatou a agência de notícias oficial da China “A cidade respondeu rapidamente às necessidades das ativistas.” Em Pequim as ativistas nom conseguírom repetir a açom, porque fôrom interrumpidas pela polícia que as obrigou a permanecer por cinco horas  num restaurante para evitar que fossem para outro banho.

[6] Professora Associada de História e Estudos de Género e História, na universidade do Michigan.

[7]http://chinachange.org/2015/04/12/detention-of-five-chinese-feminist-activists-at-the-juncture-of-beijing20-an-interview-with-professor-wang-zheng/

[8] http://feministing.com/2015/05/18/quick-hit-chinese-feminist-xiao-meili-speaks-out/

[9]http://www.dailylife.com.au/news-and-views/news-features/chinas-womens-rights-activists-arrested-after-protest-over-domestic-violence-20150406-1mf29s.html [10]http://chinachange.org/2015/04/12/detention-of-five-chinese-feminist-activists-at-the-juncture-of-beijing20-an-interview-with-professor-wang-zheng/

[11] Idem.

[12]http://www.dailylife.com.au/news-and-views/news-features/chinas-womens-rights-activists-arrested-after-protest-over-domestic-violence-20150406-1mf29s.html

[13]http://feministing.com/2015/05/18/quick-hit-chinese-feminist-xiao-meili-speaks-out/

[14]http://www.nytimes.com/2016/04/14/world/asia/china-feminist-five-beijing.html?_r=1