de Emmanuelle Goes

Não lembro exatamente quando criamos o “Chá das Pretas”, mas lembro do primeiro chá entre irmãs. Ainda no inverno mais frio de Portugal, eu e Bruna caminhávamos pelo centro do Porto, e ela me convida para um chá, em um espaço aconchegante, meia luz e quente, como a maioria dos lugares de chás e cafés do Porto.

Tomando o chá, Bruna nos questiona: “Estamos tomando chá no final da tarde, será que isso é uma pratica nossa?”

Entre tantas coisas que falamos, fiquei aconchegada com dois fatos. Então eu disse: Na minha casa (terreiro de candomblé) sempre que alguém vai se cuidar, nos damos banho de folha e um chá quentinho, acredito que é limpeza dentro e fora, além do colo necessário para completar o cuidado.

Bruna diz: “Quando tomo chá, penso em minha mãe me abraçando, toda vez que tomo chá penso isso”. Eu olhava pra ela e segurava o meu chá com as duas mãos pegando toda sua quentura como o colo de mãe.

Depois de um tempo criamos o Chá das Pretas e fomos catando as mulheres negras que estavam ou eram do Porto e desde então, os nossos encontros tem sido um ritual de amor, como o salão de beleza – sisterhood – um espaço de muito chá, colos, abraços e desagues e conexões transatlânticas.

Em alisando nossos cabelos, bell hooks diz que o salão de beleza era um espaço de aumento da consciência, um espaço em que as mulheres negras compartilhavam contos, lamúrias, atribulações, fofocas – um lugar onde se poderia ser acolhida e renovar o espírito.

“Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.” bell hooks em Vivendo de Amor.

A nossa revolução traz almas e corpos aquecidos com muito amor entre nós! Serei eu uma escolhida para lutar com a armar do amor? Se sim, já começo na vantagem! Eu agradeço ao universo por esse momento e vida longa ao chá das pretas.

bell hooks. Vivendo de amor. https://www.geledes.org.br/vivendo-de-amor/

bell hooks. Alisando nossos cabelos. https://www.geledes.org.br/alisando-o-nosso-cabelo-por-bell-hooks/

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Brasileira, iniciante em escritas literárias, feminista negra, pesquisadora, enfermeira, doutoranda em Saúde Pública, blogueira. Pesquisa saúde das mulheres negras com o foco na Intersecção do racismo e do sexismo e os impactos na Saúde. As madrugadas me inspiram tal como a lua cheia. Escrevo poesia para desaguar, mas os números são meus aliados. Blog: populacaonegra.blogspot.com.br