por Mari Fidalgo

fotografias: Daniela Bento

O contato é umha das estratégias mais efetivas para vincularmo-nos, para materializar umha política do comúm que ponha a vida e as necessidades no centro. Porém nesta altura encontra fronteiras ainda maiores que as já estabelecidas por umha sociedade marcada pola carência afetiva e de contato para além dos marcos socialmente validados, como som as relaçons de parelha cismonoheteronormadas e entre familiares. Num momento no que nos atopamos de frente com a nossa vulnerabilidade é vital rachar com a fronteira do distanciamento e reinventar formas de contato autênticas, nutritivas e seguras que deam sustento à umha política transformadora desde o amor e a interdependência. Romper com a fronteira do distanciamento social pós-Covid-19 e reinventar formas de contacto que amparem os processos de construçom comunitária e saúde integral.

Umha das rupturas mais impactantes que vivim com a crise sanitária foi a imposiçom do distanciamento social como medida para frear os contágios. Digo ruptura porque percebo claramente como essa suposta medida protetora chegou a perturbar um valor central para mim: o papel do contacto e da proximidade para a construçom e a manutençom de vínculos significativos.

Nom acatei essa medida totalmente. Nom em todas as circuntâncias e com todas as pessoas. Mas reconheço que algo se remexeu, que se produziu umha fissura no que antes era incontestável.

Quanto de imprescindível é o contacto? Há que renunciar a ele para cuidar a saúde pessoal e coletiva?

Nom sei se a distopia que estamos a viver é umha obra de engenharia social arquitetada por umha cúpula de poderosos. Inclino-me mais a pensar que som signos dum processo de colapso sistêmico em que levamos tempo mergulhades e que cada vez será de maior impacto e alcance. Porém tenho claro que as medidas que se adotárom por parte dos governos para gerir esta nova crise beneficiam umha forma de fazer política baseada no controle social, na manipulaçom do medo e outras emoçons primárias. 

À margem de elucubrar sobre as motivaçons que estam na base da gestom política da pandemia, o certo é que as palavras moldam as nossas subjetividades. A repetiçom contínua de determinadas ideias vam configurando umha representaçom da realidade, um sentir respeito à mesma e um estar corporal que nos dispom ou nos entorpece para  segundo que atividades. 

Se a interdependência é umha condiçom elementar para sustentar a vida e resgatar o sentido de comunidade, podemos imaginar o salto individualista que supom estar  continuamente expostas ao discurso do distanciamento social. Nom é exagerado prever que este componente da chamada “nova normalidade” acabe por filtrar-se em nós. Que acabe por alojar-se numhas subjetividades já de por si egocentradas, fragmentadas e devotas da auto-suficiência. 

Muitas levamos insistindo desde a declaraçom do estado de alarme na importância de discernir entre a distância física (que pode ser necessária em algumhas circunstâncias e como medida profiláctica para determinados coletivos) e a social, no sentido de compromisso ético e emocional para com as demais pessoas e disposiçom para o encontro. 

O contacto é umha das estratégias mais efetivas para vincularmo-nos, para materializar umha política do comum que ponha a vida e as necessidades (humanas e nom só) no centro.

A pele representa a borda do eu e também via de comunicaçom com o mundo e com outros seres.

Como tudo o que nos rodeia está atravessada por relaçons de poder baseadas na branquitude e na colonialidade. É portanto umha dimensom fundamental para umha açom transfeminista decolonial que desloque a preponderância do pensamento e que ponha no foco as sensaçons, emoçons, necessidades e desejos.

Mas se um horizonte de emancipaçom, equidade e bom viver logra-se mediante umha política transformadora desde o amor [1] construída mao a mao com todas as identidades subalternas, como fazê-lo sem o abraço? Sem esses atos que encarnam reconhecimento e afirmaçom e que som a matéria para amassar umha comunidade afetivo-política? Como sarar as feridas históricas abertas no corpo-comunidade sem o toque? Como processar as perdas, os medos, as dores, o abandono, a exlcusom e a angústia sem a contençom que oferece a pele com pele?

O contacto é vital para a manutençom e a promoçom da saúde integral, tanto pessoal como comunitária. “Todo corpo que nom é acariciado começa a morrer”.[2]

As carícias, que som o resultado do contacto empapado dumha atitude afetiva, têm múltiplos e documentados benefícios: promovem o equilíbrio neurovegetativo e a homeostase, reforçam o sistema imunológico, dissolvem tensons crónicas, têm efeito sedativo e tranquilizante, elevam o estado de ânimo e induzem emoçons como a ternura, a alegria, o bem estar e o prazer. Tudo isso graças aos hormónios segregados durante o contacto e em particular à oxitocina que favorece comportamentos e atitudes pró-sociais como a confiança, a cooperaçom, a  generosidade, a empatia e a compaixom. 

Nesta altura o contacto físico encontra fronteiras ainda maiores que as já estabelecidas por umha sociedade marcada pola carência afetiva e de contacto mais alá dos marcos socialmente validados como som as relaçons de parelha cismonoheteronormadas e entre familiares. Sinto que é necessário encontrar estratégias para paliar os efeitos da distância física nas situaçons em que esta seja imprescindível, adotando práticas que nos aproximem de todo o potencial político e terapêutico do contacto. 

Num momento en que nos encontramos de frente com a nossa vulnerabilidade e que ainda ficam por processar as dores e quebras desencadeadas polo surto da Covid 19 é vital recuperar a potência e a sanaçom de olhar-nos diretamente aos olhos, da co-escuita em que se favorece a expressom emocional, no pranto com contençom, nas palavras de consolo e no movimento livre e libertador. 

Acredito que a ternura e a resiliência som medicinas precisas para tratar-nos do capitalismo patriarcal colonial predatório da natureza e dos vínculos humanos.

Acredito que há muitas vias para colocá-las em prática sem pôr em risco a saúde das pessoas mais vulneráveis e a nossa própria. Que o podemos fazer sem renunciar à umha política transformadora desde o amor e a cooperaçom que tanto precisamos e que passa inevitavelmente polo contacto. Encontremos formas de rachar com a fronteira do distanciamento e reinventemos formas de contacto autênticas, nutritivas e seguras. 

[1] https://malvestida.com/2020/07/amar-a-las-mujeres-trans-feminismo-decolonial/
[2] Rolando Toro. Contato e Carícias, caderno de formaçom de facilitadorxs de Biodanza.

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Mari Fidalgo

Psicóloga e facilitadora de Biodanza. Integra espaços que abarcam o transfeminismo, as lutas contras as fronteiras, o antirracismo e os direitos sociais. Define-se como ativista pola construçom de vidas dignas e plenas. Neste texto partilha algumhas reflexons sobre as fronteiras ao contato e o seu impacto para avançar numha política transformadora desde o amor e a interdependência.

 

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