de Sara M. Bello e Giada Maria Barcellona

O fascismo está ao virar da esquina ou é que nunca foi embora? A nossas vidas som um oásis ou, na realidade, o sistema, em todos os seus rostos, aperta os nossos tempos, os nossos desejos, as nossas vidas e os nossos corpos? Qual é a nossa luita feminista antifascista? Por que esperamos as suas unhas crescerem antes de construir umha resistência diária que nos proteja, sem exceçom?

Na realidade, vivemos atrapadas nas pressas, no afogo diário do trabalho, da incerteza de futuro, nuns tempos mediáticos em que o feminismo parece muitas vezes unívoco, fácil de assimilar. A ministra leva umha camiseta de Zara baixo o lema “I am feminist” e parece que todo está bem assim. Nada mais que falar, vamos a ganhar…

Mas o fascismo achega-se cada vez mais. Este sistema cis-hetero-patriarcal e capitalista já nom o mantém em rédea curta. Agora é mais visível, mais presente. Pero para quem? Será que agora temos medo de que nos toque a nós com mais força o que padecem tantas pessoas desde há demasiado tempo?

Muitas dúvidas e perguntas. E muita, muita, muita necessidade de juntar-nos, de ouvir todas as vozes. Necessidade de colher tempo de vida para olhar para nós, reconhecermo-nos mais umha vez e pôr a palavra (as palavras) no centro. Por isso, quigemos valorizar a conversa, a partilha de ideias e a escuita como potência geradora de projetos contra o fascismo. A conversa como ferramenta transformadora que horizontalize as relaçons, que permita encontrar pensamento e açom na diversidade de vozes. Fugir por umha vez das grandes referentes para encontrar possibilidades de transformaçom feminista no nosso quotidiano. Há alguma cousa mais feminista do que olhar para nós coma iguais?

Manhám do 27 de abril do 2019, Centro Social A Comuna da Corunha. A mesa está cheia de petiscos doces e salgados e umha gravadora, a aguardar polas companheiras. Vam chegando aos poucos. Nom é fácil ser pontual um sábado de manhám, os corpos precisam de descanso. Conversamos mais de duas horas. As vozes por momentos sobreponhem-se, outras vezes ficamos mui atentas às companheiras, rimos e também trocamos quotidianidades. Nom faltam lembranças das que já nom estám. Essa mesma tarde haverá umha homenagem à Pastora, de Nais contra a Impunidade, em Riás (Malpica). O antifascismo também era isto, juntar-se, construir-se em comum, nom deixarmos que falem por nós e mantermos viva a memória.

As que falam som ativistas em diferentes âmbitos: Aida, Antía, Helena, Giada, Mariola, Sandra, Sara e Sara.

Umhas perguntas num cartaz para orientar o debate:

De que estamos a falar quando falamos de fascismo atual?”

Como articular a luita feminista antifascista?

Quais ferramentas temos à disposiçom?

Quais faltam?

Que podemos fazer para avançar?

Agenda feminista: que poderíamos organizar antes de dezembro deste ano? E no ano 2020?

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COMO DEFINIMOS O FASCISMO?

“Para mim, fascismo é pensamento retrógrado, muito machismo“.

“Umha palavra que me sugere agora o fascismo é atitude cambiante: o fascismo agora nom se quer autodefinir como fascista. O fascismo está a funcionar chamando fascista a todas as demais, sem se autodefinir como fascista. Nota-se no tratamento mediático: ‘Saírom grupos com bandeiras pré-constitucionais’ ou ‘grupos radicais’: está-se fazendo umha engenharia verbal para nom chamar as cousas polo seu nome, e isso dá medo.”

“Sim, é um fascismo inverso: nom só nom se denominam fascistas quando estám a fazer apologia do fascismo como nunca antes, se nom que lhes chamam fascismo a todo o que lhes se opom. Entom, as fascistas som as feministas, as fascistas som as pessoas racializadas, etc. A inversom da linguagem é incrível: Cayetana de Toledo é um fenómeno mediático brutal, apropria-se das palavras, dá-lhe a volta e dirige-as contra nós, chamando genocidas aos que protestam, dizendo que na Catalunha estám contra os espanhóis, etc.”

“Também é umha forma de legitimar-se, nom? Aparece Vox e negociam com eles sem nengum tipo de filtro: como pode estar este partido legalizado com as barbaridades que dizem? Um partido que ataca os direitos humanos. Como podemos permitir que este partido exista? Quando se está a falar de ilegalizar os partidos independentistas porque som ‘anti-constitucionais’. É a questom de desvirtuar ou confundir a palavra ‘fascismo’ com a estratégia de dizer: ‘Nós nom somos fascistas, estamos na democracia, a constituiçom nom é fascista, nom foi feita por fascistas, porque já era depois de que morrera Franco’. Quando os mesmos militares participarom na criaçom da Constituiçom! Também a questom: ‘Porque chamamos democracia a tudo isso e ficamos tam tranquilas?’”

O Estado espanhol nom é democrático, é fascista

“De todos modos, Vox estava aí antes de chamar-se Vox, nom sei porque nos surpreende, estava só mais diluído”. “E quando se manifestam, é porque tenhem a segurança de nom terem oposiçom”.”Antes nom podiam, ainda que fosse só pola tensom social: agora se nom se censuram, há um retrocesso que vai ter consequências reais.”

“É o desenvolvimento natural de todo o que se levava permitindo.”

“Aqui trabalhamos por açom-reaçom, em vez de impedirmos as coisas acontecerem. Vam abrir a Fundación Franco e nós entramos no paradoxo da tolerância neste jogo democrático… Nom entendo como esta notícia nom sai nos jornais e as pessoas nom estám na rua. Isso vai-nos afetar. E até que nom se levante um grande problema, ninguém reage. ”

“Mas aqui está umha cultura de total tolerância. O regime de Franco está aqui e sob o argumento de que nom se devem abrir feridas… Isso na Argentina nom aconteceria, ninguém conceberia abrir a Fundación Videla”.

“Partimos dumha falta de memória histórica desde a guerra civil.”

Há uma absoluta supressom das raízes que temos, das quais poderíamos provir. Matárom muitas pessoas que poderiam luitar e agora nom podem estar connosco.”

“Antes eles jogavam muito com que tinham o apoio dos corpos de segurança do Estado, os tribunais – o Tribunal franquista de Orde Pública dissolveu-se e o dia seguinte foi recriado com o nome de Audiência Nacional. Passárom 24 horas e já nom é um tribunal fascista. Mas agora como começam a ter apoio na rua, fai-se umha combinaçom muito perigosa. Se tens do teu lado os tribunais, a policia e a rua…”

“E assim que comecem a legislar, isso vai ter umha grave transcendência social, porque as pessoas vam assimilar isso como correto, acabam assumindo-o”.

“Tenho a sensaçom que isso acontece porque nós também temos algo de pequenas fascistas, de polícias interiores na cabeça. Se tivéssemos umha sociedade mais forte, mais comunitária, as pessoas nom aceitariam Vox. Tenho a divisom interior entre a emergência evidente dos fascismos e como a sociedade tem fascismo na sua cabeça. O PSOE promulgou a “Ley de Extranjería” e os migrantes morrem nas fronteiras”.

“Quem está em perigo agora? As pessoas que nom estávamos, isso é a questom, o medo que agora vai tocar a nós. Mas isso deveriamos ter feito algo há muitos muitos anos e nom fazíamos porque nom nos tocava e agora…mas há gente que leva sofrendo Vox toda a vida. Vejo o perigo e resulta-me terrível ouvir estas palavras, porque agora está tocando-nos. E nom figemos o que deveriamos ter feito.”

“E acho que seguimos aí porque…o que aconteceu com a Catalunha é umha barbaridade, é totalmente antidemocrático e aqui… nada!

Na Catalunha dizem: ‘Vamos fazer umha votaçom’ – estám completamente dentro do sistema democrático – e o Estado fai umha espécie de golpe de Estado, colhem um artigo que interpretam como queiram, para fazer o que querem, metem no cárcere a gente que o que fijo foi meter urnas de plástico”

“Mas também isso democratizou a cousa: quem desta mesa havia de pensar que eles iam estar no cárcere e nós nom? (riso)

“Espera um par de anos e aposto que….”

“Sempre foi um perigo de todas nós que militamos e agora estes que som de direita estám no cárcere!”

“Há os de direita e os nom de direita, e dá muita raiva dizer que estám no cárcere por defenderem os direitos das pessoas que os votou. Isso acontece e as pessoas, os meios, os partidos políticos que se dim ‘rebeldes’ nom movem um dedo! Estam a legitimar todo. Aparece Vox e…Estám a legitimar que podem fazer todo!”

Joga-se muito com mecanismos de despersonalizaçom, nom? Os cataláns som vistos como umha massa, como também as pessoas nos cárceres, os migrantes nos CIEs e agora está-se abrindo este espectro: está a tocar a senhores brancos, bem posicionados em partidos políticos, as senhoras de bem, de direita, entom já começam a estar mais nervosos, mas sim que seguem um fio condutor que agora está mais perto de nós.”

“Sim, está a achegar-se a nós, mas nom creio que imos estar tam mal como estám as pessoas que morrem no Mediterrâneo ou na Palestina: o resto vai estar ainda pior.”

 

A CHANTAGEM DO VOTO

A democracia é umha pantominice: no momento que alguém apresenta algo que pode ser em contra, ativa-se umha maquinaria dentro dos meios de pensamento único. Também está o perigo de se jogar com os símbolos nacionais, com todas as consequências que gera. Espanholismo, os touros, a caça, as mulheres: toda a merda é justificada. Porque ‘se nos rompe el país!’”

“Estou mui cabreada com a chantagem do voto. Está em todas as partes. Parece perigoso para mim porque estám a desmantelar qualquer possibilidade de comunidade que poda deter o fascismo. Votar ou nom votar: isso nom pode ser mostrado como a única opçom possível, porque nos isola totalmente“.

“As regras do jogo já estám marcadas: votos ou nom votos, haverá CIEs [Centro de Internamiento de Extranjeros], votos ou nom voto, haverá expulsons, deportaçons… Nom me culpes por eu nom votar!.”

“E que estamos a falar de votar ou nom votar, quando na França, por exemplo, estám a sair cada semana à rua. E nós falamos de meter um papel cada quatro anos numha urna como a única opçom possível para travar o fascismo”

O sistema reduze votar à única opçom. Parece que só podes ir votar. Mas isso nom é umha proposta política, nem umha proposta política do feminismo. Votar e que mais? Há estratégia? É umha alternativa? Muitas vezes a votaçom neutraliza a demanda social.”

Vota ou nom vota, fai o que quigeres, mas luita.

 

QUE É PARA NÓS O ANTIFASCISMO?

“Como poderíamos articular umha luita feminista antifascista? Na realidade o antifascismo como movimento costuma ser muito masculinizado, muito hooliganeo, muito “capacitista”, a ver quem pode mais… Nom me sinto representada.”

A categoria antifascista isolada nom é unha categoria política válida, se nom é acompanhada por umha luita feminista, antirracista… Como categoria isolada nom me diz nada. Até Roosevelt era antifascista.”

“Eu nom entendo o feminismo sem o antifascismo, nom o entendo sem o anticapitalismo, nom entendo sem os cuidados, sem ser um movimento revolucionário e estar numha manifestaçom feminista com umha senhora gritando-me ‘Quem vai limpar este banco?’… Enfim, fai falha umha base de açom! Que fás com umha senhora que diz que há que dialogar com quem ameaça porque “As mulheres som melhores, e por isso nom nos defendemos, nom somos violentas?”. A mim, a afirmaçom: ‘A violência é patriarcal’ dói-me na alma, sobretodo porque todo o que temos nós é autodefensa! A violência é a que sofremos nós. Se dói mais que se rompa a montra dum banco que a violência contra todas nós, nom temos o mesmo código ético”

“A mim sim que me dá medo optar por umha via desse tipo sem ter estruturada a nossa coletividade, porque pode gerar algo ainda pior: violência interna, violência entre nós. Como resposta, é preciso que haja umha base forte entre nós..”

Tem de haver umha rede bem articulada, que nom seja umha questom individualista, mas o que me incomoda é que se inabilite este discurso entre nós. Feminismo=pacifismo? Pois, nom! Há muitos tipos de feminismos e eu respeito as pessoas que nom queiram ir por essa via, mas tampouco invalides toda umha história de luita feminista para nos travar.”

“O 8 de Março aqui na Corunha foi espetacular. Mas realmente quantas pessoas das que estavam aí som feministas? Quantas antifascistas? Se vás fazendo filtros, nom queda ninguém…”

 

COMO ARTICULAMOS REDES FEMINISTAS ANTIFASCISTAS?

“Esgota-me um pouco tudo isso de “que fazemos as feministas na luita antifascista”? Bum! Cai como um tijolo. Eu nom som ativista, nunca me considerei. Som umha feminista no quotidiano. Feminista da minha vida, da minha casa; tenho um sentido da justiça que me diz que há cousas que nom som toleráveis, mas vejo como me faltam ferramentas. Que podo fazer? Porque todo o mundo vive nessa passividade? Somos umha minoria tam pequena que me abruma. Se ainda por riba, tenho também que fazer umha agenda feminista…!”

“Para mim, o facto de existir uma solidariedade quotidiana de ajuda é também luita antifascista. Porque isso significa que existe umha comunidade que nom se sente ativista, mas que sabe que estará lá a apoiar.”

“Temos que criar redes de confiança para ver que existe apoio entre nós. Às vezes, queremos chegar aos objetivos mui depressa, sem antes tecermos essas redes de confiança e isso provoca muita insegurança ”.

“É verdade também que queremos olhar para longe enquanto os nossos grupos som desarticulados. Já que estamos juntas, polo menos fortalece-nos sermos felizes. Será um gueto, mas polo menos sinto que se está a criar umha rede de segurança e apoio, além dumha tentativa de fazer bem as cousas. E mais tarde imos espalhar-nos. Vai gradualmente.”

“Ficarmos sozinhas é umha tendência que se agudizou nos últimos anos dumha forma brutal. Muitas pessoas, entre as quais pessoas muito válidas, metêrom-se nos maravilhosos partidos ‘rebeldes’ e isso criou umha rotura evidente, irreconciliável que provocou passarmos de 20 militantes para 5. E como também dentro das organizaçons feministas, o tema organizativo e produtivo está completamente invisibilizado, por esta questom do ‘autocuidado’ e de ‘tenho que pensar em mim primeiro’, de repente ficam as pringadas, as ‘amas de casa feministas’ organizando para manter umha continuidade e outras a dizer: ‘É que nom me sinto bem, vou à praia’. Passamos dumha hiper-militância do movimento feminista -que nom era mais que umha herdança dos partidos políticos e sindicatos– e reagimos contra isso, o qual foi um benefício, para chegarmos a esse individualismo neoliberal de ‘eu primeiro e depois as companheiras’. Mas as companheiras ficam com frequência quase sozinhas numha açom. E quando isso acontece várias vezes é muito duro: há um maltrato aí, nom reconhecido e nom nomeado: de como nós reproduzimos as estrutura do patriarcado dentro de nós. Os cuidados, continuamos a considerá-los cuidados patriarcais, mimitos.”

“Afinal, nos feminismos também existem as princesas e as obreiras

“Som contra o “feminismo do faranduleo“. Há trabalhos muito vistosos (ler um manifesto, fazer um espetáculo…). Estám bem, mas quem vai fazer todos os outros trabalhos, para que todo se sustente? Isso lembra-me as assembleias mistas quando ninguém limpa váter, mas sobe- a um andaime com umha bengala. Reproduzimos muita merda.”

 

DESPATRIARCALIZAR O FEMINISMO: CONSTRUINDO EN HORIZONTAL

Acho que continuamos a reproduzir modalidades patriarcais e nom fomos capazes de criar umha forma organizativa diversa. Reproduzimos o que havia, mas só entre e para mulheres.”

“Tentámos fazer algumhas melhoras, por exemplo, meteu-se o tema dos cuidados como elemento importante, mas precisamos dumha análise mais profunda para nom reproduzir esquemas patriarcais.”

“As responsabilidades e os compromissos, há de cumpri-los e se cometemos erros, se há conflitos, há que falá-los. É normal que, depois de tantos anos de militância, haja conflitos, mas tem de haver vontade de resolvê-los. Cuidados nom significa invisibilizar os conflitos: há muitos ‘cadáveres de ativistas’, de gente que ficou muito frustrada, pessoas que nom fôrom tratadas bem. Cuidado é dar atençom às emoções em diferentes níveis, a nível individual e coletivo: tem que haver espaços grupais para tratar estes temas.”

“Creio que em muitos grupos feministas falta umha visom políticas dos conflitos”.

“Acontece que temos o autocolante de ‘antiautoritárias’, ‘antipatriarcais’, ‘horizontais’, mas nom existe esta horizontalidade, há autoritarismo. É muito simples ser antiautoritárias diante do Estado e da policia, mas diante de nós?

“Sempre estamos a debater entre o bem-estar psicológico e o funcionalismo. Peco de ser muito funcionalista, mas nom todo tem que ser tam funcional. Se juntas poucas pessoas para levar um projeto adiante, o impacto é mais limitado e ficas como num gueto onde estás cómoda. Mas nos grupos grande, ultrapassa-me! Encontrar um equilíbrio é complicado”.

“Há roles funcionais, há roles de guia, há roles de quem nom gosta de falar, e isso às vezes nom é fácil de assimilar. Há gente que tem ideias mui boas e ‘nom tem voz’ e nom porque nom fale, mas porque quando expressa a ideia, tem um tom de voz pouco chamativo, exprime pouco entusiasmo, ainda que o tenha por dentro. Temos umha linguagem visual, corporal, etc. Mas isso fai que nom se escuite essa pessoa. E isso pode provocar frustraçom e conflitos no coletivo”.

“Há que aprender a escuitar. Voltamos aos estereótipos masculinos: para nos fazermos fortes, temos de adotá-los: o importante é a ideia, como se fai…O coletivo tem que aprender a escuitar todo o mundo e a aprender a valorizar outras personalidades, outras formas de ser que som igualmente válidas. Ou polo menos ter em conta isso, ter este ponto de honestidade, tentá-lo.”

“Há pessoas que som verbais e tenhem espaços e tempos para expressar-se. Mas há pessoas que tenhem outras habilidades e há que dar a estas pessoas a possibilidade de comunicar na maneira em que melhor sabem”.

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BAIXAR DA NUVEM FEMINISTA

“Perdemos a ocasiom há tempo entre a esquerda e entre as mulheres para nos organizar em favor das pessoas que estám mais fodidas. Somamo-nos à luita antifascista estabelecida e nom contra a criaçom da pobreza e aqui estamos. Que haja um centro de internamento de estrangeiros é alucinante. E nom por cometerem delitos, mas só por serem estrangeirxs. Significa nom se pôr na pele das outras pessoas: é como se fôssemos a qualquer outro país e nos metessem numha prisom por sermos doutro país. E agora nom pelejamos, nom estamos todos os dias diante das portas dos CIEs, dos centros de menores, nom estamos onde há verdadeira desigualdade e verdadeiras torturas.”

“Mas tem que haver umha demanda social”.

“Essa cria-se.”

“Acabam de arquivar o caso das trabalhadoras temporárias de Huelva: saiu na rede e houvo pouquíssima repercussom: umha vergonha! Se chegam a ser 4 de Arteixo que trabalham por Amancio Ortega, nom havía este silêncio!”

“Chamamo-nos movimento feminista anti-racista e o nosso nom é real. É um erro tremendo”.

“De todos modos, tivemos aqui a Lei Mordaça que nos afetava a todas e tentar, tentou-se, sim, mas conseguimos algumha cousa? Organizamos umha concentraçom e…íamos nós! Se calhar, o que falha é como tentámos criar este movimento feminista anti-racista antifascista, porque levamos muito tempo e nom nos funciona.”

Mas a realidade é que as feministas muitas vezes nom fam parte de grupos que incluem outras questons, polo menos nesta cidade: antifascismo, anti-racismo, outras luitas sociais… Temos de fazer isso.”

“O que nom foi bem feito no passado do ativismo das esquerdistas é que nos separamos da realidade das pessoas esmagadas polo sistema e do nosso próprio dia a dia, e jogamos a ser pequenas burguesas, pessoas que começárom a ser mais ou menos “educadas”, que começam a ter as suas ideias e certa estabilidade económica “.

“Sim, foi como estar numha nuvem.”

“Nom temos contacto com as pessoas do bairro, mas somos de bairro, nom somos elites, embora em algum momento algumhas acreditem sê-lo”

“No período mais duro do ativismo, muitas feministas nom estavam. Pensei: “Porque eu estou aqui e muitas companheiras feministas nom estám? Se nom estamos nós, a realidade nom é feminista.”

“Eu também entendo quando as companheiras dim “Merda! Eu trabalho só em espaços mistos”.

“Mas também os espaços feministas nom mistos nom podem estar desligados da realidade material da vida das pessoas.”

“O que aconteceu foi que houve um tempo em que se precisavam espaços só para mulheres dentro do feminismo independente. Algumhas das que estivérom naqueles espaços mistos estavam fartas e precisavam de espaços feministas só para mulheres. E dixérom: “Vamos construir entom o mundo das mulheres!” Mas esse mundo de mulheres era um mundo de mulheres brancas, universitárias, com tempo para o ativismo. E isso  desliga-se da luita social. Eu vivim esse momento do feminismo autónomo na Galiza como umha cousa muito boa, mas a contrapartida é que chega um momento em que cada umha está no seu mundo totalmente afastada das realidades sociais. Isso conta-o também Yuderkis (Espinosa) do feminismo afrodescendente: elas entrárom no feminismo autónomo branco num momento em que o feminismo anticapitalista incluía outras mulheres nom brancas, mas para elas nom era suficiente porque o que queriam era a transformaçom social. ”

“Para mim o feminismo agora tem que voltar à realidade social mais próxima, de bairro, de onde somos. Eu nom quero feminismo para termos um debate na universidade, para nos dizerem como pensar. Se nom tem umha utilidade, nom vale.”

“É verdade que fôrom muitos anos de luita todos os dias, todo o tempo, eu terminei esgotada: como juntar todas essas luitas sem rebentar? Como articular a nossa vida pessoal que tem um ritmo brutal com a criaçom dum movimento real?

É importante termos um objetivo claro. Coloquei como exemplo as Nais da Praça de Maio. Era 1, 2 ou 3, tanto tem o número. Elas tinham um objetivo claro e contundente: denunciar desaparecimentos e tentar encontrar os desaparecidos. E elas eram apenas duas que passeavam pola Praça. Foi umha açom que em si mesma dizia todo. Isso poderia fazer-se se decidíssemos o objetivo, “o que” queremos. Quando começámos com Mulheres Transgredindo foi com um objetivo e umha açom simples: denunciar a exploraçom de Amâncio Ortega. A ideia era que todos os domingos fôssemos coser em frente a uma loja da Inditex. E essa açom deu a volta ao mundo. A açom era copiar aquela das Nais da Praça de Maio, mas para denunciarmos a exploraçom. Mas logo nom continuamos. O que é que aconteceu? Isso vem do capitalismo: “Temos que fazer mais ações, mais bonitas, maiores”. O grupo desarticulou-se, perdemos um objetivo. Umha agenda feminista, por exemplo, seria ir ao CIES até eles fecharem, porque nom se podem tolerar”.

“Também acho que há questons que como feministas e como mulheres nos afetam e que som amplamente aceites pola sociedade, e outras que nom, que até vam provocar umha reaçom social contrária. Nom vale o mesmo um violaçom de umha rapaza branca de Madrid que de umhas trabalhadoras temporárias em Huelva. O mesmo aconteceria com os CIEs, com as prisons”.

“Pois, eu concordo com o exemplo das Nais da Plaza de Mayo. Para mim é um exemplo absoluto de construçom de discurso político: o sistema fijo que todos os medias fossem contrários às Nais. Aqui também temos pessoas desaparecidas. Depois de Camboja, estamos em segundo lugar. Mas elas criárom umha estrutura com rede interna, sabiam que haveria desgaste: tenhem atividades, uma escola popular, umha comunidade inteira entre elas. Às vezes, o que precisamos é construir a longo prazo. Que necessidades emocionais realmente temos? Toda a vida nom pode ser uma luita constante.”

 

TOMARMOS JUNTAS A PALAVRA

“Falando hoje aqui estamos a colocar acima da mesa questons difíceis, mas isso também nos dá umha grande visom para fazer as cousas. Porque estám em jogo as nossas vidas e mais muitas outras vidas. Nom é engraçado como a escolha entre “fazer ioga ou pilates”: estamos a falar da vida das pessoas e do planeta. Vamos juntar-nos para conversar sobre o que queremos e o que vamos fazer. ”

 

Começamos a recolher a mesa. Há companheiras que tenhem que sair correndo para despedir a Pastora; para outras é o momento de irem trabalhar ou jantar. Despedimo-nos com um abraço e com vontade de continuar a juntar-nos entre nós e com mais companheiras. Nom estamos todas as que som. Faltam muitas vozes, mas isso é só um início. Organizaremos mais conversas transformadoras. Declaramo-nos obreiras feministas e este artigo-mosaico é a primeira prova.