de Mariola Mourelo

“Yo soy libre. Nada puede proteger la marcha de mis pensamientos, y ellos son la ley que rige mi destino.”

“Lieders” de Rosalia de Castro (1858)

Em frente da floresta de Vista Alegre partilharei reflexões às vezes loucas, desconexas ou contraditórias, às vezes cabais e certeiras com todas as que gostedes de me ler.

Hoje no primeiro escrito para Revirada a pensar sobre essa extrema exigência com que às vezes demandamos máxima coerência ao movimento feminista for ele de base, partidista ou da academia. Esperamos dum humilde grupo de mulheres ser esse espaço onde todas e cada uma das nossas necessidades têm de ser resolvidas: as políticas, as intelectuais, as pessoais e as emocionais. O feminismo é colocado como um símbolo de perfeição capaz de sanar com a sua mera existência todos os problemas do mundo, e especialmente os do nosso mundo. Se tudo estivesse “poluído” de feminismo não haveria risco de desigualdades, abusos de poder, falta de cuidados… tudo seria perfeito se só se lhe desse o espaço que merece.

No entanto enquanto experimentamos que isto nem sempre é assim, que fora e dentro do feminismo também existe a imperfeção, as Evas curiosas e atrevidas que mordem a maçã e reviram tudo já não nos parecem tão simpáticas.

Em frente desta imperfeção da comunidade feminista algumas tentamos energicamente, talvez de mais, re-esculpi-la de acordo com o nosso ideal, outras viramos o olhar para outro lado, como se nem tivessemos percebido, e outras, simplesmente afastamo-nos silenciosamente pela porta de atrás. Um brinquedo mais que não serviu.

Suspeito que esta exigência, confessa ou incofessa, que temos as feministas para com o feminismo, não é tal noutros âmbitos da nossa vida. Talvez, ao pôr tão grandes expetativas no nosso movimento de libertação, sendo a nossa esperança e ilusão nele inequiparável com qualquer outro, também a deceção vai ser maior.

Antes regressaremos com o amado imperfeito do que aceitaremos os nossos próprios limites como indivíduas e como coletivo. Seremos as mais duras críticas com as nossas companheiras, com as nossas lideresas, e com nós mesmas. Elas, nós, sem exceção temos de ser perfeitas. Partilhar lideranças, escuitar todas as vozes, estar atentas à diversidade do grupo, à interconectividade, organizar e assistir a encontros, jornadas, ações, ler, refletir, ser felizes, emocionar-se, fluir, confluir, respeitar o meu processo, o teu processo, a passividade, o frenesim … sem perder o sorriso nem um minuto.

Somos vítimas, , mártires, obreiras, revolucionárias, elitistas, , opressoras, burguesas, capitalistas, racistas, eurocêntricas… imperfeitas, sem dúvida simples mulheres imperfeitas.

Pedimos ao feminismo o que nos pedimos a nós mesmas, a perfeição impossível até o esgotamento, e então, quando já não podemos mais, rendemo-nos, afastamo-nos, juramos mais nunca pedir-nos tanto, procuramos dum quarto próprio onde descontrair de tão pesada coêrencia aprendendo amnesicamente a conviver com o inimigo, com a contradição, deitamos sem atenção as juris fóra da nossa vida. Sentimos com alegria a calma da própria morte indolora… silêncio, a vida é calma por um momento.

A calma, deliciosa mas não eterna, e logo a quotidianidade nos incomoda mais uma vez, sem importar o dourada que seja a nossa gaiola. Regressa a nósa ansiedade inaplacável de mudar tudo o que nos rodeia. Sem demora. Sem concessões. A raiva a explodir dos nossos corpos. E então, rencontramo-nos. Com o mesmo olhar cálido e complice de sempre, conhecedor como ninguém da dor e alegria que nos funde numa. É só nesse momento que temos a infinita certeza de não estarmos sozinhas, de não estarmos loucas.

E então, nom dubidamos por um instante que o feminismo é perfeito.