de Aida Suarez (Livraria Confraria Vermelha do Porto)

Nesta edição da Revirada, a louca e activista equipa desta revista feminista, propôs-nos reflectir sobre FEMINISMOS TAKE-AWAY…

A proposta lançada, foi a de reflectir sobre se o feminismo, se este se está a tornar num objecto de consumo, de usar e deitar fora, fugaz e fútil… Se o activismo militante de mulheres organizadas está a resistir estoicamente aos tempos incertos ou se estamos no apogeu do activismo individual, personalizado, de criação multimédia e interseccional?

Aceitando o desafio lançado pelas companheiras da Revirada Revista Feminista, achei que seria interessante nesta edição partilhar convosco um livro para adolescentes e jovens adultas. Contudo, na minha opinião de livreira disléxica e bilinguisticamente baralhada, é um bom livro para todas as idades. Mesmo! :)

Pensei neste livro, porque a adolescência e a juventude são naturalmente uma etapa de questionamentos sobre as normas de conduta impostas pela sociedade; para muitas jovens, é também um momento de libertação das amarras que criam um padrão comportamental rígido e opressor. Acho que As Filhas de Eva de Louise O’Neill pode ser um bom livro para que todas possamos reflectir, principalmente as mais novas, sobre o desafio que a equipa da Revirada Revista Feminista nos lançou: Que sentido tem hoje o feminismo nas nossas vidas? Como se expressa? O que nos aporta?

E o que é que nós aportamos ao feminismo?

As Filhas de Eva de Louise O’Neill

O livro foi elogiado pela crítica, que o considerou uma história única e original. Eu diria que é uma crítica social perspicaz, altamente recomendável.

A história passa-se num mundo imaginário no futuro, no qual as mulheres vivem em condições de extrema opressão e privação de direitos. Uma distopia no feminino e feminista.

“No princípio, os HOMENS criaram as novas mulheres, as evas.” Assim começa o livro, que satiriza a obsessão que as sociedades sentem com os modelos de aparência e comportamento das mulheres. Um livro assustador, real e pesado. Um abre olhos para todos nós.

As filhas de Eva, passa-se num internato, num futuro distópico no qual as mulheres são criadas em escolas, treinadas nas artes de agradar os homens, até estarem prontas para o mundo exterior. Na licenciatura, as jovens mais bem avaliadas passam a ser as “companheiras”, as que têm permissão para viver com os maridos e procriarem. A vida destas mulheres termina quando a beleza envelhece, quando deixam de ser férteis ou ultrapassam o peso ideal, sendo esta a premissa do livro… exigisse que sejam magras, perfeitas e belas. Para as jovens que ficam para trás, o futuro – como concubina ou professora – é sombrio.

A misógina é extrema, ao ponto, das bebés serem de tal maneira evitadas que os fetos femininos são rejeitados e as meninas, criadas em laboratórios.

A medida que a minha leitura avançava através da análise sombria, que O’Neill faz, dos conceitos de beleza feminina num futuro no qual as raparigas são fabricadas, e não nascidas, a minha mente lembrou-se do primeiro livro que lemos nas Leitoras de Pandora, o clube de leitura da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres: A História de uma Serva de Margaret Atwood. Atrevo-me a dizer que As Filhas de Eva, bem pode ser a versão infanto-juvenil de A História de uma Serva.

A autora irlandesa, de 29 anos, Louise O’Neill contou ao meios que:

“Eu escrevi As Filhas de Eva porque me sentia cansada. Escrevi porque me sentia intrinsecamente  envergonhada das minhas partes que me fazem ser fêmea. Escrevi porque me sentia um tanto arrasada. Escrevi porque queria começar uma conversa sobre como nós vemos e tratamos as mulheres.”

A importância de livros juvenis como As Filhas de Eva, é o facto de relatarem histórias que giram em redor das aspirações do que é ser uma jovem mulher , desconstruindo tudo aquilo que não ajuda a ter uma relação saudável e positiva com quem somos, com o nosso corpo, com os nossos sentimentos e emoções.

Quando digo que este livro é para todas as idades, digo por várias razões, e uma delas é o facto de todas termos a responsabilidade na educação das mais novas, de forma directa ou indirecta, ao ler As Filhas de Eva, as adultas percebemos as pressões que as mais novas sofrem e porque agem como agem… por vezes senti que As Filhas de Eva nos quer mostrar que é preciso encorajar a comunicação honesta entre mulheres, independentemente da idade ou outras diferenças, sermos abertas e interessadas, tentar compreender e ser empáticas. Resumindo, SORORIDADE.

Às mais novas, As Filhas de Eva, sussurra-lhes aos gritos que não se importem com o que as outras pessoas pensam sobre elas, que se apoiem umas as outras e se centrem nelas mesmas, nos seus valores e sistemas éticos e viver de acordo com aquilo que desejam.

As histórias das mais novas não são triviais e merecem ser ouvidas. Ler As Filhas de Eva é dar-lhes voz e ouvi-las.

Boa leitura & muita sororidade

Aida Suárez, a livreira vermelha

Livrariaconfrariavermelha.com

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