de Helena Carla Gonçalo Ferreira

As primeiras reivindicações dos movimentos feministas eram feitas em nome de “A mulher”, com características universais, únicas e absolutas em que todas nos tornávamos, como muito bem fundamentava Simone de Beauvoir em “O Segundo sexo”. A partir do final do século XX,  começou a perceber-se que isto era um erro, e que os sujeitos abstractos que preenchiam esta categoria de “mulher universal” eram regulados por normas que comprometiam o acto político capaz de romper e acabar com as opressões de que eram alvo. Abrimo-nos assim, a múltiplas possibilidades, tendo em conta a especificidade e heterogeneidade de cada uma de nós e assumimo-nos como identidades individuais e nómadas, reconhecendo que já nem sequer somos o único sujeito do feminismo. E é, por isso, cada uma de nós tem a sua sala de estar. Em cada uma destas salas habita um elefante feminista que, finalmente, encaramos de frente. 

Pedimos a várias mulheres, em vários pontos do globo, para nos dizer, de uma forma muito breve, qual é o elefante feminista que habita na sua sala de estar. Os resultados, como poderão verificar, revelam a enorme diversidade de opiniões e são um excelente princípio para se debaterem todas estas questões, de forma salutar:     

“Aquilo que me incomoda agora, não era o que me incomodava no passado e, não sei se será isto que me incomodará no futuro. Mas, neste momento, a viver no Cairo, o que me incomoda são os discursos de “heroínas” das mulheres ocidentais, que tudo sabem e se colocam na posição de salvadoras das mulheres africanas e orientais. Incomoda-me o eurocentrismo feminista, chamemos-lhe assim.”  Agnes Lipman, 38 anos, arqueóloga e ativista, Cairo

“Incomoda-me o feminismo radical excludente que rejeita, infantiliza e estigmatiza as mulheres que fazem trabalho sexual; incomoda-me que mulheres que se dizem feministas excluam do debate e da luta pela igualdade o sub-grupo de mulheres que faz prostituição; incomoda-me que estas feministas estejam contra as mulheres envolvidas no comércio do sexo em vez de trabalharem com e para elas.” Alexandra Oliveira, professora universitária e ativista, Porto

“Eis uma das questões que mais me perturba acerca do feminismo/dos feminismos. Ainda hoje, e apesar de tanta luta e esforços, o feminismo ou as diferentes vertentes do feminismo ainda se deparam com uma forte resistência/oposição por parte dos homens, mas também de muitas mulheres. O mais grave aqui é que, hoje em dia, muitas mulheres se declaram abertamente antifeministas. Esta questão está ainda por resolver: feminismo(s) vs o antifeminismo das mulheres.”   ALT, 49 anos, professora universitária, Estocolmo

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O feminismo contemporâneo tende a
cair em armadilhas quando tenta impor
regras de “como ser uma feminista

“Eu não sou “académica” e não estou familiarizada com as classificações utilizadas no meio. Independentemente da gíria, parece-me que as pessoas continuam a contrapor machismo (que é globalmente um) a feminismo (que são muitos e muito diversos). Preocupa-me assim que não se consiga passar à comunidade em geral que existem vários feminismos, porque isso prejudica a nossa ação. Não sei qual o nome do meu feminismo, mas sei que não é capacitista e não o consigo dissociar da minha visão de um mundo melhor, ou seja, da luta anticapitalista (e de classes, naturalmente). E como um mundo melhor tem todas as pessoas, o meu feminismo inclui forçosamente homens e outras pessoas que não se identifiquem com ser homem ou mulher (não-binário, portanto).” Ana Afonso, 45 anos, Funcionária administrativa e activista, Porto

“Preocupa no feminismo dos nossos dias a forma como a ideia de interseccionalidade é aproveitada precisamente para silenciar vozes oprimidas. Se inicialmente a metáfora da interseccionalidade serviu para chamar à atenção de todes a forma como diferentes tipos, ou fontes de opressão – como género, raça e classe – se relacionam, potenciando-se mutuamente, hoje esta mesma ideia serve amiúde para dizer que todas as micro-agressões, discriminações, até contrariedades do dia a dia, estão em pé de igualdade na ‘hierarquia’ das opressões e garantem um lugar de fala (por vezes uma prioridade), que mais uma vez silencia as mais oprimidas.” Ana Cristina Pereira, 50 anos, Investigadora no CECS – Universidade do Minho e membro do NARP – Núcleo Anti-racista do Porto, Aveiro

“Incomodam-me tantas questões! Mas, talvez tudo se resuma ao facto de as feministas desta última vaga considerarem que elas é que sabem o que é ser feminista. Passei a minha vida toda a lutar para poder fazer o que bem me apetece, para agora virem estas feministas dizerem-me que não posso dizer isto, ou fazer aquilo, porque isso não é ser uma “boa” feminista. Só de pensar na palavra “boa” associada a feminista dá-me urticária. Enquanto o conceito de “ser bom” ou “ser mau” for determinado pelo patriarcado, as feministas serão sempre “más”. Um bom exemplo do que digo foi a posição das feministas francesas ao movimento “Me Too”.” Betina Mazo, 62 anos, Professora de dança, Directora artística, Londres  

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“Na minha experiência quotidiana percebo que as mulheres negras ocuparam, e ainda ocupam, lugar secundarizado na estrutura social marcada pelo sexismo e racismo, seja pela invisibilidade de nós mulheres negras como categoria política, ou ainda pelo apagamento da nossa existência. Nesse contexto, destaco que nossas vozes esquecidas pelo feminismo hegemônico já falavam há muito tempo, produziam insurgências contra o modelo dominante e promoviam disputas de narrativas. Por isso sempre me questiono, quais outras existências seriam possíveis para nós mulheres negras se conhecêssemos nossa própria história? É possível, a partir de um olhar individual e coletivo, construirmos um movimento feminista que reconheça os processos de construção e reconhecimento das identidades, considerando a estética negra e a subjetividade negra por uma luta feminista antirracista?!” Dandara, 34 anos, professora, Minas Gerais/Brasil 

“O feminismo contemporâneo tende a cair em armadilhas quando tenta impor regras de “como ser uma feminista”: dever ou não depilar-se; como vestir-se; casar ou não casar; ter ou não filhos. Como se realmente o feminismo fosse apenas uma lista com diretrizes a seguir, esquecendo-se de que a mulher tudo pode. Dessa forma, valoriza questões que simplesmente desviam e minimizam outras muito mais relevantes, tais como a inserção em políticas públicas, o fim da cultura do estupro, equidade no mercado de trabalho entre outras questões que de fato constroem o espaço para mulher em sociedade de forma igualitária, sem superficialidades.” Evy Mello, Professora e escritora, 37 anos, São Carlos/São Paulo, Brasil 

“Para mim, o maior elefante feminista na sala, é um feminismo que não é interseccional, ou seja, um feminismo liberal, porque quando se fala de igualdade de género, não podemos ter só em conta as mulheres que já se encontram no topo do privilégio (brancas, de classe média/alta). É preciso lutar pelos direitos de todas as mulheres, mas principalmente pelas que se encontram, estruturalmente, em situações menos favorecidas, como as trans, negras e/ou de classe baixa. Somos todas mulheres e todas temos direito a ter direitos e a nossa luta só faz sentido se todas lutarmos por isso.” Francisca Ferreira, 20 anos, Estudante e Ativista Feminista e LGBTI, Porto

“O machismo de algumas feministas. Feminismo e machismo autoexcluem-se. Traduzi há pouco tempo um livro de uma dessas autoras que se intitulam feministas e ostentam um discurso mais machista do que o de alguns homens: Camille Paglia. O machismo de algumas mulheres, já o conhecia, o de certas feministas, e influentes, não. Há que ler com cautela, porque dá muito que pensar e discutir.” Helena Topa, tradutora, 55 anos, Porto

“O feminismo foi o primeiro movimento onde eu fui politizada. Num primeiro momento, no que diz respeito ao trabalho, a minha máxima foi idolatrar e relembrar as mulheres que, ao longo da história, tinham ocupado posições reservadas aos homens (engenheiras, cientistas, filósofas e até empresárias), argumentando que elas foram valentes e desafiaram o status quo. Mas agora, compreendo que só falar destas mulheres é invisibilizar e desvalorizar todas as que, atravessadas pela opressão patriarcal, não tiveram a possibilidade de escolher e dedicaram as suas vida ao trabalho reprodutivo. Então, uma das coisas que, como feminista eu tento, é deixar de associar a igualdade com a incorporação da mulher no trabalho assalariado no mercado capitalista, e começar a valorizar e reivindicar o valor inegável do trabalho reprodutivo.” Irene Martin, activista, Entre cá e lá

“Não podemos negar o progresso da condição das mulheres um pouco por todo o mundo. Negá-lo seria um insulto a quem ao longo dos séculos deu a vida por esta causa e seria transmitir a mensagem de que a luta não vale a pena. No entanto, o progresso não impede retrocessos e não nos pode fazer baixar os braços pensando que já chegámos. Não nos devemos contentar no interior das lutas feministas nem sequer com 99% de igualdade, queremos 100%. Aceitar, por exemplo, a prostituição como uma inevitabilidade é baixar os braços em relação a essa ambição. A compra de corpos estabelece uma relação de poder desigual. Sou abolicionista porque acredito na plena Igualdade. A mesma Igualdade que defendo para as mulheres racializadas, vítimas de uma dupla discriminação, discriminações cumulativas que não podem ser ignoradas por nenhum combate que se diga feminista e igualitário.” Luísa Semedo, 42 anos, docente universitária, Paris

“Aquilo que mais me incomoda dentro do feminismo, e que creio tende a vir a ser um problema grande, que causará cisões graves dentro dos feminismos, é exclusão das mulheres trans por parte de feministas radicais. Em segundo ponto  a prostituição, uma vez que vejo posições radicais de ambos os lados da barricada, por um lado as proibicionistas, por outro as que não percebem que a legalização pode levar à capitalização da prostituição sendo importante discutir um modelo diferente dos aplicados até agora no mundo. Na verdade todas estas questões que nos dividem não serão prioritárias, a prioridade deveria ser derrotar o sistema patriarcal e promover um novo sistema feminista financeiro, económico, monetário, político, ideológico, educacional e judicial.” Mar Velez, 46 anos, Activista pelo Rendimento Básico Incondicional, feminismo, LGBTI, Anti-racista, Anti-fascista, Porto

Um dos grandes elefantes dentro
da sala é decididamente o feminismo
TERF, […] porque as lutas feministas
devem muito historicamente às
comunidades trans

“Embora o desenvolvimento político do feminismo se baseie e reconheça a diversidade, no México, o feminismo classista e TERF são o grande elefante branco, pois, devido à natureza racista, classista e homofóbica do país, representam um desafio e nos confrontam com as realidades intolerantes e discriminatórias que ainda temos interiorizadas. É indispensável que, na busca por uma autêntica visão de igualdade e respeito que represente congruentemente a luta, se consigam ultrapassar as divisões de “raça” e se rompa com os radicalismos.” Marelsy Castillo Ocampo, 37 anos, Empreendedora Social, ativista, Mérida, Yucatán, México.   

“As campanhas ‘anti-género’ começam já por meados da década de 90, como reação às conferências do Cairo (1994) e de Pequim (1995), culminando com a publicação em 2003 da obra Lexicon: Ambiguous and Debatable Terms Regarding Family Life and Ethical Questions. Desde então, com os movimentos ultra-conservadores e nacionalistas espanhóis que levam a dianteira neste aspeto, e com o apoio da Igreja Católica Romana, inicia-se na Europa um movimento anti-género que, com ramificações diretas ou indiretas a nível internacional, se espalhará no período de uma década até à Rússia. Organização económica capitalista, política conservadora de direita e o conservadorismo religioso encontram então no género uma espécie de referente vazio contra o qual se batem, dando a impressão de uma frente unida em prol do retorno do ‘bom-senso’ e do ‘equilíbrio’, de uma atitude ‘comedida’ numa situação em que, como dizem, ‘já foi longe de mais’. Tem razão Braidotti ao afirmar que o “homonacionalismo” é um peão nas relações internacionais contemporâneas, e uma preocupação central para a política feminista e queer (Braidotti, 2017/2018:304).” Maria Manuel Baptista, Professora Catedrática, 55 anos, Aveiro 

“O posicionamento a favor do regulamento da prostituição como trabalho sexual coloca-me esta questão principal: os argumentos que escuto têm sempre a ver com a mulher prostituída, e nunca colocam o foco no homem. No fim de contas, é o homem que, baseado na lei não escrita, de que o seu desejo sexual deve ser satisfeito, compra uma violação e estabelece assim a dominação patriarcal baseada no sexo com o corpo da mulher prostituída. Isto é lícito num contexto de feminismo comunitário? E que se nasce puta? E que nós como sujeitos mulheres não devemos estar ao beneplácito dos homens, a não ser que seja pago?” Marta, 31 anos, enfermeira e ativista, Madrid

“O que mais me incomoda no feminismo é este assumir posições moralistas, como se em seu nome se pudessem encaixar narrativas preconceituosas e discriminatórias relativamente à escolha livre das mulheres, como por exemplo no caso das mulheres trans, trabalhadoras do sexo, entre outros exemplos de grupos socialmente inconformes.” Mónica Carneiro, 25 anos, Ativista Feminista e embaixadora do SheDecides em Portugal, Porto

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“Triste perceber o dispêndio de energia em discussões que menosprezam, diminuem ou desconsideram, “interfaces” do feminismo combativo. O feminismo interseccional é representativo da multiplicidade de sujeitas envolvidas na luta feminista. Ele é capaz de incluir as distintas particularidades de cada campo de dominação: raça, classe e gênero. Cada um em separado não é capaz de contemplar o todo do processo de opressão que nós mulheres estamos vivendo há séculos. Essa luta por si, de dentro do feminismo para o mundo é gigantesca. Utilizar tempos de debates feministas com críticas de caráter excludente (ao estereotipar lutas importantes como “identitárias” e classificá-las como menos importante e ofuscadoras DA luta “realmente” importante) apenas minimiza a potencialidade de um cenário de luta inclusivo e de uma atuação francamente envolvente das diferentes sujeitas.” Nicole Geovana, militante da Marcha Mundial das Mulheres, médica de família, 35 anos, Uberlândia-MG-Brasil

“Muitas vezes é a dor que leva ao feminismo. A dor da pancada, do mau trato, dos olhares esguios, do isolamento, da revolta. Eu cheguei por via da justiça. Quando estava no segundo ano da universidade, durante um encontro de um trabalho de grupo, uma amiga perguntou-me: “Tu és feminista?”, e eu respondi “Eu não. Nunca li os grandes livros, os tais clássicos que a professora fala na aula”. Então ela atacou-me com a pergunta “Estás a querer dizer que as mulheres que não têm acesso aos “clássicos”, que não sabem ler ou escrever, não podem ser feministas?”. Eu revoltei-me e respondi “Claro que podem!”. Interessa-me pensar a partir do paradigma da justiça – a social, a económica, a cultural, a de género- a política. Do reconhecimento de insubmissões e de direitos às políticas de redistribuição. Interessa-me que pensamento, investigação e ação sejam uma práxis de quem se propõe a pensar (e coletivamente) a transformação social. Mas que este processo não seja campo de exclusão, não seja apoiado em narrativas biologizantes ou em dogmas sexuais e identitários. A bandeira anticapitalista não chega se quem a segura estabelece fronteiras às utopias.” Patrícia Martins, 31 anos, Técnica de Intervenção Comunitária e Ativista feminista, Porto  

“Todo o feminismo que exclui, me incomoda porque está a reproduzir os comportamentos que não desejo. Mas talvez a pior exclusão seja a das mulheres trans, porque lhes nega a sua identidade. Isso, para mim, não faz qualquer sentido e não é feminismo.” Sara Marina, Professora, 53 anos, Rio de Mouro

“Um dos grandes elefantes dentro da sala é decididamente o feminismo TERF, que apoia uma exclusão da comunidade trans, usando por base uma construção essencialista e redutora da(s) mulher(es), como se fosse a nossa biologia o que nos agrega. Incomoda-me particularmente porque as lutas feministas devem muito historicamente às comunidades trans.” Sofia Brito, Bolseira de Investigação e Activista feminista e LGBTI,  24 anos, Porto

“O que mais me incomoda atualmente é, para além do aproveitamento que se tende a fazer das reivindicações feministas por pessoas, coletivos e instituições não feministas ou anti-género, a dispersão e a falta de diálogo entre os feminismos que, sendo diferentes, se complementam.” Sofia Neves, 43 anos, Docente e Investigadora, Presidente da Associação Plano I, Braga

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Helena Ferreira é feminista e ativista de direitos humanos.

Gosta de pessoas e de viajar e descobriu, recentemente, que o caminho é mais importante que o destino.

É o que é, e isso não é suficiente, porque tem sempre necessidade de ser mais, fazer mais, ser melhor, fazer melhor.