de Mariola Mourelo

Esmeralda Batipão chegou à Europa da Guiné Bissau com apenas três anos. Cresceu e morou em Lisboa até que chegou à Corunha no 2008. É uma mulher jovem e empreendedora que geriu o Café da Guiné, um sonho verde no bairro das Atochas. Este local converteu-se num espaço de encontro com cor, música, arte, cultura e saborosos pratos de aquém e além do mar nos 2 anos que estivo aberto. Da Guiné à Corunha a Esmeralda irradia energia e vontade de sonhar para todas aquelas pessoas dispostas a abrir-lhe o coração.

“Sou uma sonhadora, acho que tens de sonhar para poder sobreviver no mundo. ”

Falar da Esmeralda Batipão é pensar quase de imediato no Café da Guiné, o local que gerias na rua São José, nas Atochas. Da Guinéfoi importante nesta cidade ao se tornar um espaço de encontro de artistas, ativistas, pessoas bem diferentes que nos sentíamos à vontade com esse mundo verde que nos oferecias. Mas ti que pretendias conseguir com o Café da Guiné?

A princípio de todo estabilizar-me porque eu estava perto dos trinta anos e eu queria ter um local meu, ser independente, ser autónoma, tudo o que não tinha logrado antes. Café da Guiné principalmente era isso porque queria montar um negócio para que também a minha filha no futuro pudesse ter um trabalho. A minha força para sonhar e continuar apesar das dificuldades, tem um nome, Leonarda, a minha filha. Eu sou mãe solteira e o que faço sempre é por e para ela. Se eu estiver soa viviria dum jeito muito diferente, mas com ela, por ela faço tudo.

Além disso queria dar a conhecer Guiné Bissau, uma ex-colônia portuguesa, os seus costumes, a sua comida… por isso se chamava Café da Guiné. A minha ideia era criar um café bar com cultura, arte, com música… com tudo, tudo, e que todas as pessoas puderam lá dentro fazer coisas, o que elas quiserem, compartir, rir, dançar… E acho que durante um tempo isso foi assim. Conheci muitas pessoas e elas me conhecerem a mim, eu gostei muito disso.

No entanto e apesares de ser um local muito agradável, com muita atividade a correr nele e conseguir resistir a complexidade da hotelaria corunhesa, por causa da chamada “crise”, e a pressão municipal e vizinhal finalmente Café da Guiné fechou as suas portas no ano passado. Que achas não correu bem?

Não funcionou primeiro porque eu era uma autónoma pioneira, uma jovenzinha com muitos sonhos, mas os sonhos e a realidade muitas vezes não se encontram ou não são amigos. Foi isso. A ideia era bonita. O local estava muito bem arranjado. Dentro do local era como um sonho tornado realidade, mas os que olhavam de fora para dentro não o entendiam. Essa era a luta. O sonho do que o Café da Guiné pretendia ser estava na minha cabeça, mas como podias entrar na minha cabeça? Foi muito difícil ao princípio comunicar este sonho tão meu. Mas depois, pouco a pouco a gente foi percebendo. Eu fui aprendendo a mostrar esse sonho para a gente. E foi muito lindo.

Qual foi o problema? Olha, como explicar… a cor do Café da Guiné era verde, a cor da esperança, mas o que as pessoas não entendiam, eu creio, era um pontinho negro que estava detrás do balcão (risos). Se eu puideira pintar-me-ia. Cheguei a pensar que com outra empregada no balcão entraria mais gente. Recordas a bicicleta? Era uma bicicleta que colocáramos no meio da rua, toda pintada de verde esmeralda a anunciar o Café da Guiné. A gente ficava curiosa com o jeito de anunciarmo-nos e se aproximavam, mesmo lhe tiravam uma fotografia a bicicleta. Muitas vezes passou de as pessoas ficarem curiosas, aproximar-se até ali e não entrar.

Antes de ter o Café da Guiné, também percebeste alguma vez que a gente te estava a tratar diferente por seres negra?

Não tão direto. Com o local ficou mais evidente. A alguns clientes tive de convida-los a saírem. Como um homem que entrou no meu bar, também dizer que ele não devia estar muito bem da cabeça. “Os negros são uma raça inferior” disse assim, sem mais. E eu disse “Ah sim? Pois este bar é meu, fora! Fiquei muito zangada.

E outros senhores maiores que confundiam a coisa. Num princípio foi difícil, chegaram a me perguntar se havia camas acima. Há uma certa confusão na cabeça dalguns galegos, especialmente os duma certa idade. Eu acho que antes se associava negra a uma outra coisa.

Realmente, eu fui muito atrevida, muito mesmo, porque não conheço nenhuma negra mais a fazer algo assim na cidade. Falo de ser negra, não gente duma cor mais ou menos escura. Estão as latinas que aqui chamam-lhes negras, mas elas não são negras. Não. Eu é que sou negra. Eu sei que a minha cor é difícil em todo o mundo. Em Portugal estão mais habituadas às pessoas negras, sabes? Somos ex-colônias de Portugal e estamos no país há uma moreia de tempo… por isso é que eu não entendia o que se passava comigo quando eu cheguei aqui. Com o tempo entendi que aqui, estão só a conhecer os negros há pouco tempo, há poucos anos. Está certo que os negros não somos todos do mesmo lugar nem temos as mesmas situações. Somos distintos. Agora entendi que os que moram cá vêm com mais dificuldades, em condições muito complexas, alguns mesmo chegam em “pateras”…Chegam aqui e não têm papeis, e têm de comer. Então essas primeiras mulheres lutadoras que viram para aqui, tinham de se dedicar a certas coisas, e as cabeças daqui entenderam que todas as negras eram assim.

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Eu sou uma outra geração de migração, talvez uma pessoa com estudos, com vida social, que está lutando em similares condições a um galego que vive aqui. Mas apesar disso esses clientes dos que te falava me tratavam daquela maneira.

É mesmo muito importante o direito de igualdade. Em Portugal não senti o racismo, há racismo, mas não o senti como aqui. Lá posso ir com os meus amigos, e entrar num bar e não me sentir estranha… foi um choque para mim ao chegar nesta sociedade.

Falas de que a situação legal das pessoas negras em Portugal é mais igualitária, é que as pessoas das ex-colônias entram com papeis no país?

Há um convenio com as ex-colônias portuguesas que facilita a nossa entrada com papeis na Europa. Além disso a nossa língua nacional é o português: Angola, Moçambique, Cabo Verde, que te posso contar? Somos tantos a falar português…

Também entras numa comunidade muito grande, quando ti chegas-te ao país já havia muita gente da Guiné a morar em Portugal?

Sim, muita, gente em trabalhos muito diferentes, mesmo em ofícios de muita responsabilidade, médicos… aqui não os vês, a dia de hoje não vês pessoas negras nesse tipo de trabalhos. Ao negro não se lhe dá essa confiança, esse é o problema.

E aqui na Corunha também há uma comunidade de gente da Guiné?

Sim, conheci algumas pessoas através do Café da Guiné. Ao morar na zona da Torre, onde não há tantos migrantes negros como na rua Barcelona, não conhecia muitas pessoas negras.

Também foi um dos meus objetivos. Queria falar com as mulheres de Senegal, e mesmo disse-lhes para nos arrumar e irmos tomar um café nalgum lugar. Também para que nos começassem a ver com outros olhos. Não só como a empregada de fogar, como a que cuida as pessoas idosas, mas também como mulheres que nos encontramos para passar um bom tempo.

A maior parte das mulheres negras que moram aqui trabalham passando a roupa, na “plancha”. Eu tenho conhecidas que mesmo têm carreira, mas como não têm papéis, nem se lhes dá a oportunidade e elas também não lutam por isso pois lá ficam.

É que não as vês. Dá-me muita raiva. Os homens sim os vês na rua a vender, mas e as mulheres? Às vezes eles não trazem as mulheres aqui porque não há trabalho ou não sei o que, e quando as trazem é para o que?

Eu acho que tenhas papeis ou não, as pessoas temos direito a sair, a estar fora, a que se nos veja… e isso queria, mas também a cultura lá é muito diferente, a religião… Tentei e sei que é muito difícil. Elas ficam nas suas casas.. Para vir a Europa tens de te adaptar à Europa, tens de mudar o chip, eu acho.

É certo que eu cheguei a Portugal com 3 anos, então é diferente também para mi. Nunca mais regressei a África. No entanto eu sou da África descendo de africanos.

Política 4

Em que idioma falas com as mulheres de Senegal?

Elas falam wólof e francês, eu não, então falamos em espanhol. Entendemo-nos bem. O meu espanhol é mais fluente do que o delas, mas não há problema, entendemo-nos bem.

Que pensas lhe faz falta a Corunha para te sentires mais parte da comunidade?

Eu penso que o que realmente faz falta é que a gente não coloque a culpa nos outros, em se nos aceitam… não, eu acho que tens de ser atrevida. Tu sabes que vão olhar raro para ti. Sabes que vão comentar a tua volta. Talvez hoje alguma gente olhe para ti com racismo, mas tens de ser forte e enfrenta-lo. É difícil, porque dá medo, e dói, dói mesmo. Mas algum dia vão-te ver como uma igual.

Quais são os teus projetos atuais?

De momento quero tentar recuperar-me dos altibaixos da vida que tive atá agora. Depois a vida lá dirá.