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Andrea Inocêncio, 2014

Em determinadas relações, por vezes, é costume proferirem-se palavras como: “És minha/meu namorada/a, tens que satisfazer as minhas necessidades.”; “Não prestas”; “Não vales nada!”; “Prova que me mereces.”; entre outras. Atitudes que revelam claras tentativas de exercer poder, sem respeito pela liberdade e pela forma de estar e ser da/o outra/o. Comportamentos destes são comuns não só em relações amorosas mas também em relações sociais. O ser humano tem uma sede natural de poder.

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I want no power procura a utopia. Desprover-se de qualquer tipo de poder. Propondo, apenas, a hipótese de aceitar todos os seres humanos sejam eles como forem. Tratou-se deste tema no feminino. Por haver mais casos de subjugação neste género. Por me ser mais próximo. Por ser mulher e, realidade seja dita, também por possuir uma caixa cheia de pensos higiénicos inutilizados — pelo formato anormalmente diminuto e por ter feito alergia na tentativa de os usar — aos quais quis dar novo significado. Mais uma questão que remeteu para a feminilidade, portanto.

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Desta feita, foram convidadas várias mulheres a serem fotografadas em sessões individuais. Mulheres de várias gerações, solteiras, casadas, divorciadas, grávidas, mães e avós. Assistentes sociais, actrizes, artistas, arqueólogas, arquitectas, bibliotecárias, educadoras de infância, empregadas de balcão, engenheiras, designers, donas de casa, enfermeiras, médicas, mulheres-a-dias, professoras secundárias e universitárias e pescadoras. A maioria no activo, algumas desempregadas e outras já aposentadas. Umas mais alegres e descontraídas, outras mais reservadas. Todas mulheres, na sua simplicidade e complexidade. Sem preocupações com imagens ou comportamentos sociais, pretendendo transportar meramente a sua essência e ser tão somente iguais a si próprias.

Resultaram 21 caixas de joalharia transformadas em pequenos objectos visuais que contêm as imagens fotográficas realizadas e os diminutos pensos higiénicos.

arteAndrea Inocêncio nasceu em Coimbra, Portugal em 1977

Expõe e apresenta performances individuais e colectivas desde 1996. A sua práctica artística passa pela fotografia, performance, instalação, desenho, cenografia e figurinos para teatro, etc. O contexto da sua obra tem um compromisso social e político através de um diálogo crítico e irónico. Gira em torno de conceitos como as fronteiras culturais, identidade, género, estereótipos e as dificuldades que os preconceitos sociais trazem às relações humanas.

Questiona também, a figura da mulher artista, heroína, migrante e em trânsito, a violência social e a permanente luta por sobreviver num meio hostil. O seu trabalho tem por base a observação e a participação activa num processo contínuo de investigação e de criação quer colectiva como individual.Desenvolve projectos em colaboração com artistas portugueses e internacionais provenientes de várias áreas, procurando enriquecer a sua prática artística e explorar a transdisciplinaridade através destes encontros. É fundadora do colectivo de performance Malparidas juntamente com Valeria Cotaimich (Argentina) e Melina Peña (México).http://www.andreainocencio.com