de Xácia Ceive

Umha resposta ao comunicado de Justiça polo mão. Umha exploraçom de que tipo de feminismo queremos. Umha perspetiva trans feminista.

Em 1968 Valerie Solanas tentou matar Andy Warhol. Quase conseguiu. No manifesto de Valerie Solanas, SCUM, dixo que haveria que aniquilar todas as pessoas de sexo macho no mundo. Ainda se debate se era sátira ou nom. Em 2019 o blogue, Justiça pola Mão, no seu único comunicado, citou Valeria Solanas antes de defender os eventos que ocorrerom no C.S. Aturuxo no 1J do mesmo ano. Claro, a citaçom era umha defesa da inevitável necessidade de violência. Nom era umha defesa de tentar matar Andy Warhol. Acho.

Actress shoots andy

Nom vou entrar nos eventos do 1J. Nom estivem. Nom falei com as pessoas envolvidas diretamente. Nom estivem no ambiente antes dos eventos, sofrendo esta serie de agressons. Nom as escutei. Cousas que seriam necessário para comentar.

Mas, com o comunicado da Justiça pola Mão, abrirom um espaço no feminismo galego para falar do rol de violência nos nossos movimentos.

Este debate está estruturado com o lema “feminismos que incomodam.”  É umha frase ganhando espaço dentro dos nossos feminismos da Galiza. Até tivem diante umha TERF a defender que usar linguagem masculina contra mim é o feminismo que incomoda. Claro. Incomodamos a quem? Para que? Em que maneira? O problema é que, vindo dum movimento de mudança radical, as cousas que ”incomodam” parecem ser boas. Revelam estruturas desexaminadas. Mostram privilégios que nom querem desalojar-se. Mas também, podemos estar incomodando coletivos marginalizados, ou, empregando a formula de “feminismos que incomodam” para defender atos de violência. Este lema condiciona o debate cara um lado. Suaviza o ato em foco. 

Nom é que o que passou incomodara algumas feministas. É que algumhas feministas eram plenamente em contra deste tipo de violência. Seria melhor dizer “feminismos que polarizam o movimento feminista.” E nom é mal em si polarizar. Enquanto o feminismo seja racista, nom é mala idea polarizar e declarar plenamente que o racismo nom vai ser tolerado, por exemplo. Mas temos que chamar as cousas como estam e nom embelezarmos um lado do debate com frases como “feminismos que incomodam.”

Outra palavra que teria que manter um sentido limpo e claro: autodefesa. Eu preciso o conceito de violência nomeado como autodefesa. Haverá momentos em que tenho que defender-me. Houvo-os. Preciso que todas, todos, todes, entendamos exactamente de que falamos quando empregamos a palavra autodefesa.

Como entendemos o tipo de violência que se passou o 1J? O comunicado de Justiça pola Mão empregou a palavra autodefesa repetidamente para defender as ações do 1J.  O que foi? Um ato planificado, organizado e sobre o que — de acordo com o comunicado— se argumentou que a violência poderia ter surgido organicamente, a partir da raiva. Respondendo às acusações de que a violência tivera umha base de lógica punitiva, declararam:

Esta açom gerou-se desde a raiva, pero também com o objetivo de coletivizar um problema, aliviar a necessidade de expor unha realidade que era ignorada e invisibilizada. É certo que houvo violência física, mas isso nom significa que provenha dumha lógica de castigo, senom umha expressom de repulsa desde as nossas entranhas do que está a acontecer.”

 Mas, sinceramente, se querem repelir o argumento de que a violência tivo um elemento punitivo, devem repensar o titulo do blogue, “Justiça pola Mão”.  Alem dos referentes literários, nom nos dissuade da ideia de que o que passou tivo um elemento punitivo.

“Umha violência, premeditada,
que se mistura nas augas de raiva
e justiça, por muito que puidesse
ser justificável, nom é autodefesa.”

Umha violência, premeditada, que se mistura nas augas de raiva e justiça, por muito que puidesse ser justificável, nom é autodefesa. Quando tentamos chamar tal ato “autodefesa” estamos cegando um fio de ferramentas e palavras que som muito importantes para o nosso coletivo. Podemos ter o debate: há espaço no feminismo para este tipo de violência? Mas, por favor, deixemos que autodefesa seja autodefesa. 

Está permitido matar Andy Warhol ou nom? Agora temos que entrar no mundo torcido de Valerie Solanas. Ela escreveu que as fêmeas já mostravam as virtudes de força, de dominaçom, raciocínio e que os homens é que som os fracos, emocionais, e vulneráveis. Noutras palavras, nom precisamos homens porque as mulheres já somos machos. Inspirada por Valerie Solanas, a transfeminista Andrea Long Chu, em 2019, arguiu que todas as pessoas no mundo somos fêmeas e detestamos ser. Definou fêmea polo sacrifício das necessidades e desejos duma pessoa polas doutra. 

O certo é que o feminismo nunca o tivo claro. O desafio do feminismo será criar mulheres machos (fortes, dominantes, violentas, pilotas de caça) ou criar homens fêmeas (empáticas, cuidadosas, deixam as suas próprias necessidades ao lado polas necessidades doutras), ou os dois, ou nenhum. Umha mistura. Ou o que? Podemos ser violentas ou quê? Qual exatamente é o objetivo do feminismo em relaçom com os nossos comportamentos?

Long Chu e Solanas som reducionistas com temas complexos, mas debaixo disto residem questons mui concretas. Há feminismos que ridicularizam mulheres femininas ou heterossexuais, que valoram só lésbicas masculinas em posiçons de poder. O separatismo. Há outros, como o eco-feminismo, que querem que aprofundemos em virtudes supostamente femininas como os cuidados até que os cuidados traiam todo e todes somos cuidadoris da nossa mai terra, e de todas as criaturas, nós incluídas, no universo. 

O feminismo tem umha capacidade única, nenhum outro movimento social tem a possibilidade de re-construir fundamente os patrons de ser, as maneiras em que nos relacionamos: mulheres, homens, e outris. O comunismo nom o fixo, o anarquismo, a maioria das vezes, reproduz relações tóxicas. Os movimentos em prol da Galiza como sujeito reproduzem relações tóxicas. Só o feminismo, em conjunto com o trans-ativismo, (que hoje em dia e, sendo necessário no nível teórico sermos trans-feministas, é o mesmo movimento) tem a capacidade de reconstruir todo. 

Parte da esquerda –e parte de certos feminismos- exclamam que a violência é patriarcal; pero a violência nom é, como o poder, nom se possui, exerce-se.”

O comunicado da Justiça pola Mão, defende assim, que a violência nom parte do patriarcado. 

Obviamente, violência em si nom pertence ao patriarcado. Antes do Cristianismo, as mulheres celtas eram guerreiras. Mas, o certo é que, a violência, como maneira de manipular ou mudar a situaçom, como técnica de controlo, surge das formas históricas em que nos encontramos. Reproduzem tais formulas, copiam tais formulas. Este facto em si nom é umha condenaçom de violência como resposta. Se nom existe nenhuma outra possibilidade, nom imos negar as únicas ferramentas que temos. Quando estou atacada, fisicamente, nom tenho outro remédio, rejeito ser vitima, e vou empregar a auto-defesa verdadeira, ao melhor da minha capacidade.

“…exclamam que (a violência) é
patriarcal, mas a violência nom
é, como o poder, nom se possui,
exerce-se.”

Mas, umha cousa é fazer violência num momento de desespero, e umha outra, defender tal ato no calmo do depois. Nom há nada mal em dizer, figem umha violência, pensei-o necessário no momento e nom o vou defender na teoria depois, porque nom quero romantizar a violência dentro do feminismo. Nom quero montar umha defesa teórica de algo que nom surgiu de teoria. 

Esse é o meu medo, cerca o comunicado de Justiça pola Mão. Enquanto valorizamos um caminho, fechamos outros. O feminismo tem umha oportunidade de ser o movimento social que repensa totalmente a nossa maneira de nos relacionar, mas nom é umha certeza que vaiamos escolher este caminho. Podemos, em vez de criar novos mundos, acabar replicando patrons historicamente masculinos: de autoridade, de poder, de violência, de guerra e conflito. E assim fechamos o caminho ao nosso potencial.

Nom estou julgando os eventos do 1J. Só estou ponhendo em cuestom o que defendemos teoricamente, o que valoramos, o que romantizamos. Umha cousa é tentar matar Andy Warhol,  outra é escrever um manifesto declarando que temos que aniquilar todos os homens no mundo.

pateajefe

Vou examinar dous exemplos de métodos machos no comunicado da Justiça pola mão.

Defenderom-se das criticas de que: havia unha pequena cúpula que manipula o resto. Assim, responsabilizam de toda a açom a unhas poucas moças, as más mulheres, as tolas, às que convertem deste jeito no inimigo a odiar e castigar; enquanto infantilizam ao resto, a quem vem como joguetes manipulados, a quem resgatar e reeducar. Por isto, falar de manipulaçom da sororidade parece-nos insultante.”

Enquanto um cacique ou tirano no estilo de Donald Trump está confrontado com acusações de manipular os seus seguidores, qual é a resposta de sempre? “Nom acredito que te rebaixasses a insultar a estas pessoas tam chulas, tam inteligentes, tam boas.” Claro está que nom estou insinuando que ninguém é tirana. Só estou analisando a nossa polémica. O problema com este tipo de resposta é que sempre é, nalgumha medida, falsa. Em quase todos os grupos do mundo, há pessoas que possuem mais autoridade, mais respeito, mais poder. O forma macho é ocultar esta autoridade com palavras bonitas, e, assim, manter o poder. Umha forma radicalmente fêmea seria para as pessoas que tenhem mais peso, que tenham mais autoridade natural, declará-lo em cada momento adequado. Visibilizá-lo, e desta maneira, consciencializar todo o coletivo da existência deste poder, e da necessidade de compensá-lo. O pior que podemos fazer é esconder este facto debaixo de palavras como “infantilizaçom.” É um truque de demagogos machos. O Poder sempre se auto-protege com sombras. A honestidade e claridade som as ferramentas radicalmente fêmeas. 

O segundo exemplo tem a ver com cis-sexismo (melhor conhecido polo nome transfóbia).  As autoras do manifesto de guerra escrito antes e para o 1J no Aturuxo, admitirom, depois de receber criticas de transfobia, homofobia e a eliminaçom de identidades nom-binárias, que tiverom que fazer autocrítica. E claro, pois bem, nom? Autocrítica nom é mui macho. O problema é que, depois da suposta autocrítica escreverom, no comunicado, um parágrafo cheio de cis-sexismo.

“Em esta época de pós-modernidade que enfatiza a diversidade que existe no próprio sujeito “mulheres”, quase que poderíamos aventurarmo-nos a afirmar que nós somos já só umha comunidade afetiva; umha coletividade unida inexoravelmente por umha trágica laçada de subordinaçom, violência, terror, sofrimento e raiva.”

A mençom de pós-modernidade é totalmente errada. Pinta mulheres trans como umha novidade, ligada a um modo filosófico. Nom. Sempre existíamos. A nossa existência nom tem nada a ver com a pós-modernidade. Ou podemos aceitar a realidade de diversidade ou negá-la. Esta linha menciona a existência de diversidade com desdém. Contesto a ideia que “o coletivo de mulheres nos estamos unidas somente através de sofrimento e raiva” mas, responder amplamente a este ponto requer outro artigo mais. Para entender um tema complexo como “O que é a comunidade de mulheres” teriam que escutar também as mulheres trans e empoderar a nossa voz. Em terceiro lugar, pôr “mulheres” assim entre aspas é umha maneira de degradar o termo, por ter incluído mulheres trans. Todo nesta frase é cis-sexista e feio.

“Pinta mulheres trans como
umha novidade, ligada a um
modo filosófico. Nom. Sempre
existíamos”

O que é autocrítica realmente? É interessante que tem um ênfase no “auto” que é, o ego, o Eu. É umha cousa que eu fago. Claramente, autocrítica é um método de responder mais avançado que a forma mais tosca macho de rejeitar em absoluto todo tipo de crítica, mas pode ser que, na procura de formas fêmeas, tenhamos que superar incluso a autocrítica mesma de cara a um processo mais radical, mais escutoso. Estou bastante certa de que nengumha trans ativista revisou aquel parágrafo. Se calhar, seria melhor deixar atrás esta interminável tendência macho de ter a ultima palavra, de defender-se, de mastigar a dor das pessoas que magoamos e pôr a nossa marca por encima. Umha crítica baseada na escuta poderia ter evitado novas aggressons cis-sexistas depois de tal ‘auto-crítica’. 

Claro que nom nos dá espaço para elaborarmos umha teoria completa de métodos de fêmeas, mas, revisando o que temos:

E que pensaríamos se a resposta, no comunicado de Justiça pola Mão, tivera sido construído nas seguintes linhas:

— Rejeitar defender nem romantizar a violência que aconteceu, para deixar o caminho claro para outras formas no feminismo. Declarar que, nom vimos outra possibilidade desde um ambiente de emergência, mas nom imos conjurar umha teoria que valoriza a violência feminista. Pode ser que haja outras maneiras de responder.

—Imos chamar as cousas exatamente o que som. Autodefesa é umha cousa e o que figemos foi outra. Se queremos ter debate no feminismo do valor dumha violência que pode estar bem descrita como ‘Justiça pola Mão’ — tenhamo-lo. Mas nom imos suavizar o tema.

— Que sejamos totalmente transparentes e honestas com as nossas dinâmicas internas de poder e de influencia e autoridade porque a melhor maneira de combater poder é reconhecê-lo. 

—-Na crítica, reconhecemos os nossos privilégios, abrindo-nos a ser criticadas polas companheiras e companheiris afetadis, aceitando a critica e divulgando as palavras destas vozes. 

—- Nom nos imos defender como fariam machos. Imos deixar todo isso aberto à comunidade de feministas, para debater abertamente com todos os factos bem transparentes e descritos na maneira mais clara e honesta possível.

Se essa fosse a resposta, umha resposta totalmente radical e anti-macho em forma, teríamos a nossa comunidade polarizada? 

Será um feminismo que incomoda? Estou pedindo muito? Estou. De mais. Nengumha de nós teria respondido na linha marcada arriba. Estamos mergulhadas de mais em valores machos e muitas feministas antes ensinárom-nos que a única maneira de avançar é ser masculina. Ser ‘forte’. Replicar estes modos de poder e autoridade. Ser Margaret Thatcher. Ser Hillary Clinton. Dizer que, se nom estás de acordo a cem por cento comigo, és a minha inimiga. Premer o botom que mata milhões de mulheres de países árabes.

Este artigo existe mais para provocar umha conversa sobre que tipo de feminismo queremos. E o que queremos fazer com o potencial que temos?

Que queremos? Um mundo de homens fêmeas? Mulheres machos? Pilotas de caça? Separatismo Lesbiano? Só pessoas nom-binarias? Eco-feminismo? Aniquilar os homens?

Andy Warhol morreu de transtornos do ritmo cardíaco em 1987. Valerie Solanas morreu de pneumonia em 1988. Nós estamos vivas.

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Xácia Ceive.

Organizadora de Sete Outeiros, trans feminista, presidenta de FEMforte, mulher da floresta.

Email:  ola@seteouteiros.gal

www.seteouteiros.gal www.somparis.com