de Helena Ferreira

Sempre que em criança me sentava de pernas bem abertas era severamente repreendida com: “uma senhora não se senta dessa forma. Uma menina que se senta assim, nunca será uma senhora”. Na altura, apesar de não perceber o que era ser uma “senhora”, já sabia que não o queria ser. Só não sabia que não o ser, significava ser outra coisa: uma “puta”. Na verdade, também não sabia o que era ser uma “puta”. No entanto, a certeza que tinha de não querer ser uma “senhora”, não era aqui a mesma, uma vez que não sabia se queria ou não ser uma “puta”.

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Agora que sou uma mulher adulta e percebo o que os outros, e lamentavelmente também as outras, querem dizer quando se referem a “uma senhora” e a “uma puta”, continuo com a certeza que não quero ser a tal “senhora” e que, irreversivelmente, devo ser a tal “puta”. Senão, vejamos: uma “senhora” é aquela que cumpre escrupulosamente todas as normas ditadas pelo patriarcado porque basta que transgrida uma (apenas uma) para que passe a ser “puta”. Caramba, apenas uma! Já pensaram? Do tipo “uma “senhora” não veste saia curta, nem usa decotes ousados”, nem mesmo quando se conseguem estrelar ovos no chão movimentado das praças das cidades. Caso o faça, é chamada de “puta” pela grande maioria dos homens, mas também pelas mulheres que aceitam e até gostam que as dividam entre as “senhoras” e as “putas”. Esta divisão faz com que elas, as “senhoras”, sejam vistas como boas e respeitáveis pelos homens e pelas outras “senhoras” conservando assim as normas heteropatriarcais que perpetuam esta sociedade sexista e machista. As “senhoras” são aquelas que são para namorar, casar e formar família e quantas menos forem, melhor, porque diminui a concorrência. As “putas” não são consideradas rivais. Por muito que os homens gostem de estar com elas, nunca vão querer um relacionamento sério, porque as mulheres “boas”, “honestas” e “sérias” são as “senhoras”. Este discurso é tão conservador e grotesco que pensamos que já foi ultrapassado, mas, infelizmente, não é assim e surge sempre que os machos e as ditas “senhoras” necessitam dele para defenderem o seu mundo heteropatriarcal do seu maior inimigo: as mulheres livres que teimam em prevaricar e mandam esta gente e as suas normas para o carvalho mais velho.

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Senão, vejamos: se as mulheres bebem demais e são sujeitas a situações de abuso sexual são “putas”, porque as “senhoras” não devem beber para não ficarem expostas ao abuso; se fazem sexo no primeiro encontro são “putas”, porque as “senhoras” não têm o mesmo desejo sexual dos outros seres humanos, principalmente nos primeiros encontros; se fazem sexo com várias pessoas são “putas”, porque as “senhoras” só fazem sexo com um único homem e será o melhor sexo do planeta, até porque como não têm termo de comparação, o macho com quem copulam é um mestre na arte de provocar orgasmos. E se continuássemos a colocar pressupostos não terminaríamos nunca, porque na verdade, tal como já se referiu, qualquer ação, por pequenina que seja, que de algum modo infrinja uma norma social heteropatriarcal é um excelente motivo para sermos apelidadas de “putas”. Estamos fartas! Fartas do machismo dos homens e da hipocrisia das “senhoras” que se colocam ao seu lado por inércia, cobardia e, principalmente, medo. Medo que tanto os homens, como as outras “senhoras” as coloquem na posição de “putas”, algo que não saberiam enfrentar. Não somos “senhoras” nem “putas”, somos MULHERES LIVRES e temos o direito a ser o que quisermos e a fazer o que desejarmos.

Estamos fartas que nos dividam em “senhoras” e “putas”. SOMOS TODAS MULHERES!

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Helena Ferreira

DSCN3300Helena Ferreira é feminista e activista de direitos humanos. Doutoranda do programa doutoral em Estudos Culturais em parceria entre a Universidade de Aveiro e a Universidade do Minho, é membro da equipa do Centro de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Aveiro. 

Publicações recentes relacionam-se com as seguintes temáticas: semiótica, estudos dos media, teoria queer, questões de género e direitos humanos.