de Amelia, avó da Capuchinha Vermelha

Olá amigas! Queria participar nesta nova edição da Revista Revirada e ajudar a sua fantástica equipa e colaboradoras a revirar consciências. Gostava de estrear a minha participação na Revirada falando-vos de uma acção levada a cabo por umas amigas da minha neta.

Há uns dias, a minha neta chegou a casa e ofereceu-me um autocolante com o hashtag #nãosousócona e disse-me:

“Avó, acho que vais gostar desta acção e acho que vais querer participar.”

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Cá estou eu, a participar!

Iniciativas como #nãosousócona são necessárias. Eu diria urgentes!!! 

Iniciativas que promovem a escrita em matilha. A catarse em tribo. Que abrem uma pista para podermos correr e gritar aquilo que ficou tatuado nos nossos corposmente, deixando o piloto automático sempre ligado. O nosso corpo é um campo de batalha.

São iniciativas como #nãosousócona, radicais, que procuram visibilizar a raiz das coisas que são necessárias. Não sermos radicais parece-me como mínimo, superficial, até estúpido. Sejam radicais, independente do que digam por aí!

A acção #nãosousócona é uma acção feminista e é o feminismo que torna possível acções como #nãosousócona. O feminismo é, precisamente, o discurso vital que nos tem permitido curar as feridas abertas pela brutalidade dos machos do patriarcado.

Bem-haja as InversMente pela iniciativa #nãosousócona. Bem-haja a todas as pessoas que partilharam e que vão partilhar as suas histórias nesta acção.

Quando uma de nós relembra e volta a sentir em cada poro da sua pele aquele momento em que um macho babão do patriarcado invadiu o seu espaço, e partilha esse momento através da escrita tornando-o público usando um hastag como #nãosousócona, não está simplesmente a colabora numa campanha, está a fazer um striptease íntimo e na maioria das vezes doloroso mas extremamente necessário. Um striptease de LIBERDADE.

Podemos pensar que nos estamos a expor ao partilhar algo tão íntimo e que, como íntimo, deveria ficar aí, na esfera do silêncio.

Sabem aquele momento, no qual nos questionamos se devemos ou não falar? Ou se, não será melhor não dizer nada e seguir caminho? Aquele momento no qual pensamos que o melhor é esquecer?

São esses momentos, nos quais me apercebo da misoginia latente, a misoginia que habita em nós, bem dentro do nosso corpomente. Está tão incrustada, que me parece quase impossível ser real. Mas é! É ela que nos remete ao silêncio, que nos faz sentir vergonha, medo. #nãosousócona quer quebrar esse silêncio, ajudar a desfazer a vergonha e o medo que sentimos dos e nos nossos corposmente. Se o nosso corpo é um campo de batalha, lutemos por ele e com ele. E a melhor maneira é habita-lo livremente sem silêncios, vergonhas e medos.

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#nãosousóconanasruas

Quando digo “os nossos corpos” não me estou a circunscrever aos que se entendem biosocialmente como mulher. Isso seria reduzir e eu quero somar. Sejamos matilha e não alimentemos os grupos, e muito menos subgrupos, nos quais nos querem dividir e fragmentar, as putas (fufas, feministas, as bichas, as trans, os travestis, as heteras insubmissas e restantes pessoas maravilhosas) e as santas (as dóceis e discretas pessoas que seguem as leis do patriarcado). Pensem comigo, quem é que nos quer dividir? O Patriarcado. Vamos permitir que o faça? Que enfraqueça a força que reside na nossa união?

As pessoas que gritamos #nãosousócona, habitamos corposmente diversos e coloridos, umas temos conas que foram feitas carne no ventre das nossas mães, outras têm conas feitas pelas mãos cirúrgicas de especialistas num bloco operatório, outras têm pilas de carne, outras de plástico, umas usam sutiã e outras não… outras isto, outras aquilo. Somos uma matilha diversa.

Não tenho dúvida alguma, que independentemente da forma que como cada uma se vive desde o seu corpomente, não é o corpo aquele que nos aglutina ou separa, são as ideias tacanhas do patriarcado que habitam em todas/os nós discretamente para nos tentar. Por isso gritemos #nãosousócona.

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#nãossousócona no mentro

#nãosousócona

CONA [Calão] Conjunto das partes genitais femininas. = VULVA, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Mas CONA também é um palavrão usado em situações extremas, para assediar sexualmente, para insultar alguém, para rebaixar e descriminar. Os “Homo piropensis” acham que este tipo de “elogio” não é ofensivo e que quem ouve gosta:

“Enchia-te a cona de leite.”

“Lambia-te essa cona toda.”

“Tens uns olhos que, que,… que te comia a cona toda!”

As propostas de teor sexual a que as mulheres (mas não só) são submetidas enquanto andam na rua têm de parar gritando #nãosousócona. Medo, repulsa, vergonha, submetimento, desconforto, inferioridade. Estes são alguns dos sentimentos utilizados para descrever o que é ouvir um “piropo” de um homem (geralmente até mais velho) enquanto passamos pela rua, submetidas a olhares e risos vindos de outros homens que possam ter ouvido o comentário.

“Mas elas gostam!” Não, não gostamos.

Gritemos

Quando gritamos #nãosousócona também destruímos as etiquetas com as que socialmente nos compreendemos. Quando gritamos #nãosousócona reflectimos e fazemos reflectir, a quem nos quer ouvir, sobre as mutações de feminidade e sobre o conceito biopolítico MULHER.

Todas conhecemos as artificialidade do sexo, do género e por isso gritamos #nãosousócona… gritemos quando:

– Quando nos hipersexualizam;

– Quando nos hiperfeminizam;

-Quando objetificam os nossos corpos;

– Quando o assédio sexual é naturalizado como piropo;
– Quando a violação é justificada como acto correctivo;

– Quando somos agredidas física e/ou verbalmente por causa de manifestação pública de afecto;

– Quando abrem centros de reabilitação da orientação sexual;

– Quando somos queimadas com ácido por queremos abandonar o agressor;

– Quando somos obrigadas a fugir para evitarmos um casamento forçado;

– Quando somos descriminadas ao entrar num espaço público, como por exemplo,  uma casa de banho pública;

Quando …

Quando…

Quando…

 

Continuem vocês a lista e não se esqueçam da diferença entre tolerar e respeitar. Respeito é consideração, é a atitude que leva alguém a tratar a outra pessoa com aceitação, como ser humano que é. Diferente de tolerar, que é a atitude de aturar, engolir, suportar.