de Cláudia Köver

foto da obra “Conjunción (2)” de Raquel Forner

Deixou laços e atilhos para trás. Segurou-me firme pela mão e pelo cabelo, entrelaçando-me ao seu tronco maduro enquanto pressionava a minha mão na sua face e me engolia os dedos trémulos para os acalmar. Cediam os músculos no percorrer da floresta virgem. Os seus, porque os meus pendiam em seu torno, sentido em pouco o impacto imediato da corrida nocturna. Chegado ao arvoredo profundo, cai por terra. De unhas cravadas à superfície da sua carne, de olhos cerrados entre imagens desfocadas e respiração perdida em sufoco. Apoiou-se sobre o solo, levantando-me do chão as costas arqueadas para me despertar. Segurara o suspiro em mim preso, mas que ali se rompeu elevando o eco às aves dos mais altos galhos e aos animais rastejantes do subsolo. A viagem silenciosa fora em vão e descobriam mais do que o corpo no destino – ouvia-se a música da banda ao longe quanto me descobriram a ausência dos meus laços e atilhos.

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Cláudia_Kover2Cláudia Köver nasceu em Lisboa. Portuguesa de origem alemã, vive na dictomia do caos e da ordenação. Actualmente reside em Bruxelas, onde se inspira na vida de todos os dias para dar continuidade aos seus caminhos na escrita.