História (muito resumida) de uma mulher Rokitansky

de Ana Souto Villanustre (Vagalume)

Imagino que todas as pessoas acabam por ter alguma espécie de segredo que não se atrevem a contar por medo de serem julgadas. O pior é a sensação de quererem esquecer o “peso” desse segredo e não acreditarem em serem capazes de o fazer por medo das consequências de abrirem a porta das suas próprias gaiolas. Essa dicotomia entre o desejo de liberdade e a predileção pela segurança. Apesar de nos esforçarmos em fazer de um segredo um elemento natural das nossas vidas, todo o pássaro, mais cedo ou mais tarde, precisa de estender as asas para estas não ficarem amarrotadas atrás das grades. Falo da experiência, como mulher que durante quatro anos tentou ocultar parte da sua essência por receio de ser rejeitada pelos demais, até que não fui capaz de continuar a trair-me. O facto de estar a esconder esse segredo também implicava renegar parte de mim e, em consequência, não poder ser eu mesma. Porque ter de me envergonhar de ser uma mulher Rokitansky?

A verdade é que com 15 anos de idade não foi nada fácil saber que tinha nascido com um útero demasiado pequeno para alojar uma nova vida no seu interior, mas essa não tinha sido a única notícia pouco afortunada: acrescentava-se a isto uma vagina pouco profunda para poder ter relações sexuais. Eu olhava-me no espelho e no meu reflexo não podia evitar ver uma mulher incompleta, que além de não conseguir trazer vida para o mundo também não podia gozar dos prazeres naturais que o sexo proporciona. A cada novo olhar no espelho, reparava em como a escuridão me engolia cada vez mais. Uma espécie de mão invisível puxava por mim, como se me quisesse afundar nas profundezas desse vazio que me atormentava de dia e me impedia de dormir nas noites de insónia e pesadelos. Quantas vezes, de facto, não terei ensopado em lágrimas a almofada, com vontade de afogar os choros mudos no meu quarto, para que o meu irmão, do outro lado da parede, não pudesse reparar que algo não estava bem comigo.

Naquele tempo eu odiava-me, com todas as minhas forças, milhares de perguntas rondavam a minha cabeça. Todas elas podiam ser resumidas numa: “Por que eu?”-. Sentia-me uma espécie de “bicho estranho”, um ser único no universo, uma entre cinco mil mulheres (como se na realidade fosse a única). O pior era a angústia de não o poder partilhar, de não poder berrar ao mundo “sou mulher Rokitansky” até ficar sem voz. Escolhi esconder-me, optei por me encerrar no meu mundo e me deixar pegar pelas folhas dos romances que devorava em questão de dias ou mesmo horas. Ali eu sentia-me protegida, nada de mau me podia acontecer entre as linhas de tinta preta em que qualquer pessoa é aceite.

O mundo exterior era aquele que me intimidava. Não era para mim, com as suas etiquetas impostas que, de forma implícita, me definiam como mulher de segunda categoria: 1) por não poder ficar grávida; e 2) por não poder dar prazer a um homem como seria de esperar numa relação heterossexual. Talvez essas ideias, esses pensamentos produto dos altos níveis de toxicidade da sociedade, acabassem por ser os meus maiores inimigos. Como é que me ocorria isso de medir a minha valia em função dos centímetros da minha vagina? Para não falar do retrógrado facto de me preocupar mais com o prazer que poderia ou não poderia vir a dar, como se o meu corpo tivesse sido concebido unicamente para servir um homem. Quiçá essas ideias pouco saudáveis tivessem a sua origem naquele comentário do senhor doutor: “Não podes ter relações sexuais se não te sujeitares a um tratamento”.

Estava mesmo inocente… Naquela altura eu acreditei que as suas palavras guardavam verdades absolutas e que o melhor seria ter uma vida afastada de qualquer rapaz da minha idade, para evitar assim ter de dar explicações sobre o meu corpo diferente ao do resto de mulheres. Mas, como é que não podia ter relações sexuais? Por acaso não existem montes de formas de dar e receber prazer? Na nossa sociedade parece que se não há penetração, então não chegou a haver uma relação sexual. Uma afirmação completamente errada. Não há formas corretas ou incorretas de ter sexo. De facto, impor uma única forma de sexo é incompatível com a própria definição do sexo. A sexualidade, do meu ponto de vista, é um verdadeiro ato de liberdade que não só serve para descobrir outra pessoa, mas também para nos (re)descobrirmos. Existem tantas formas de sexo como o número de combinações de pessoas que possa haver no mundo, já que cada uma de nós encontra prazer em coisas diferentes. Por que limitar o ato sexual ao coito?

Durante muito tempo, demasiado, senti que era inferior ao resto das mulheres por realmente acreditar não ser capaz de dar prazer a alguém e não ter sequer um corpo o suficientemente apto. Quão errada estava… A qualidade do sexo, da mesma forma que não está ligada ao tamanho do pénis de um homem, também não deveria depender completamente da profundidade da vagina de uma mulher. Evidentemente, tenho de aceitar que o meu corpo era diferente, mas o diferente não tem de ser visto necessariamente como algo de mau. Por acaso, o sexo não se trata de se moldar mutuamente, de que dois corpos se complementem e se compenetrem até se fundirem num só? O sexo é um processo de conhecimento, de enriquecimento e de adaptação. Mesmo se tivesse nascido com uma vagina de medida média, isso não estaria a garantir o clímax ao deitar-me com um rapaz.

Quando recordo o meu passado, fico contente de ter deixado de ser a rapariga adolescente cheia de medo que não contemplava a possibilidade de viver o amor e o sexo em primeira pessoa. Até que apareceu esse primeiro rapaz a quem tive que acabar por lhe contar tudo. A ele seguiu-se uma segunda relação novamente com o amor como protagonista. Naquela altura achava que não seria capaz de me deitar com um rapaz que não tivesse o título de namorado impresso. O amor era a minha área de conforto, o meu salvo-conduto para revelar o meu segredo a quem eu considerava que tinha de conhecê-lo devido à pressão das circunstâncias. Uma faca de dois gumes, pois a minha aceitação estava baseada na aceitação da outra pessoa. Caía no erro de me querer simplesmente pelo facto de um rapaz ter decidido estar com alguém (tão merdas) como eu. No entanto, uma vez que ele desaparecia da minha vida, eu voltava a topar-me contra um muro de concreto, tingido do mais profundo e frio dos azeviches. Apesar de me dar de forte, infelizmente, era uma pessoa que nutria a sua auto-estima em base à presença de um homem na minha vida.

Passar a estar sozinha – não ter um par à minha beira – foi se calhar o elemento detonante que me fez mudar de perspectiva, o fator que me obrigou a redesenhar o reflexo que aparecia impresso no espelho cada vez que tinha a coragem de o contemplar. Virei dona da paleta de cores da minha vida e com um pincel na mão comecei a pintar aquele retrato em que ainda continuo a trabalhar. A dose de força inesperada talvez tenha brotado da raiva que sentia por continuar a ter medo depois de quatro anos a conhecer essa característica que faz parte de mim. Dei-me conta de que para os outros me aceitarem, primeiro tinha de ser eu a ver-me com bons olhos: “muda a forma de ver as coisas para as coisas mudarem de forma”. É uma frase de que sempre gostei imenso. Porém, pô-la em prática não é bem tão fácil, mas sim o início. Se algo me tem causado verdadeiro dano foi esse auto-ódio capaz de ficar embutido nas profundezas do meu ser. Já houve amigos, pares e conhecidos a provocarem-me verdadeira dor com os seus comentários, mas essas são as feridas que acabam por curar passado um tempo. Quando és tu a atirar a ti mesma, então tens a capacidade de criar feridas das quais emana sangue constantemente. Eu era a única a pôr fim a isso.

Não podia continuar a viver assim. Por que atirar à cara ser mulher Rokitansky, se não é algo que dependa de mim? Há pessoas com sinaizinhos por todo o corpo; outras têm sardas no verão; e há outras pessoas (mulheres) que fazemos parte do coletivo de orquídeas do jardim em lugar de sermos rosas. Todas nós flores, no fim, com as nossas pétalas, folhas e caules. De cores variáveis e fragrâncias diferentes, mas plantas igualmente bonitas, válidas e fortes. Precisava de me ver com a mesma naturalidade com que desejava ser vista pelo resto de gente, de modo que que a mudança tinha de começar em mim. Assumir, também, que nem toda a gente seria capaz de perceber, que haveria pessoas que continuariam a olhar-me de “lado”, como a esse bicho estranho que já me senti. Mas, apesar de tudo, não permitir que a rejeição dos outros acabasse por determinar a percepção que eu fosse ter da minha pessoa. Troquei a cor preta de Rokitansky pelo violeta da liberdade e a luta, aprendi a lhe ter carinho e, sobretudo, a fazer disso uma característica minha e não uma falha.

Após quatro anos de luta, de cair e de me levantar uma e outra vez para me poder impulsionar mais forte, acabou por se tornar real aquilo que aos quinze anos era uma utopia: operar-me. Tinha tentado criar uma neovagina com dilatadores, só que além de não ter conseguido nenhum tipo de resultado positivo, o tratamento tinha começado a fazer-se sentir a nível psicológico devido à impotência de não poder mudar o meu corpo apesar de ter em minhas mãos a suposta solução (a dor física de ter de pôr um dilatador 20 minutos cada manhã e cada noite era demasiado dura). No Estado espanhol, em terras catalãs, ofereceram-me a oportunidade de ser operada. A minha primeira viagem a Barcelona ocorreu no verão de 2015 e naquele tempo augurava-se que teria de esperar um ano. Uma mistura de sentimentos… Por um lado, êxtase por saber que de ali a pouco estaria numa sala de operações e, por outro lado, ter noção de que aquele ano seria mesmo eterno. Provavelmente esse foi outro dos incentivos que me impulsou a ser eu cirurgiã e pegar num bisturi invisível baseado no amor próprio e aceitação da minha pessoa. A cirurgia podia esperar, mas o amor para mim era imperativo.

A sorte esteve do meu lado e quando menos estava à espera, em novembro de 2015, recebi uma chamada de telefone do Mediterrâneo. Tinha sido selecionada para fazer parte de um congresso no mês de dezembro no qual viria a ser uma das afortunadas que seriam operadas. Assim que recebi a boa notícia, não pude evitar chorar, com a mesma força com que chorei quando acordei após ser operada e vivi uma espécie de flashback ao lembrar-me do longo caminho percorrido. Em adolescente pensava que nunca conseguiria querer-me, por não ter um corpo “normal”. Estava errada. Mas em Barcelona assinei a minha liberdade.

Quando já tinham passado vários meses desde que fui operada, nem tudo era cor orquídea… Pensava que os dias em baixo acabariam por desaparecer, só que havia manhãs em que acordava rodeada de uma espécie de bruma, um desânimo que pegava fundo e não sabia como apagar. Como a minha vagina foi criada numa sala de operações e por tratar-se de um músculo que da mesma forma que estica também volta à sua forma inicial, tenho de pôr um dilatador de silicone. Antes punha grande parte do dia (ou no mínimo, toda a noite). Havia momentos em que desejava poder arrancar isso que levava entre as pernas e lançá-lo através da janela, sobretudo quando estava a sentir muita dor. Quando passava várias horas sem ele dentro não podia evitar sentir-me culpada, por não ser capaz de estar com ele o dia inteiro, além de ter medo de que a vagina acabasse por fechar e depois não conseguir voltar a pô-lo.

No fundo sei que nunca estive demasiado com ele fora para estragar toda uma cirurgia (além de que o melhor dilatador é ter relações sexuais). Aquilo que talvez mais me afeta é o facto de pensar que é algo para a vida. Porque, se algo é certo, apesar do bom que possa ser o sexo, não posso depender do sexo como tratamento. Não preciso de arranjar namorado, posso ter relações com outras pessoas sem estar a namorar, mas de forma alguma deveria criar dependência com o sexo só para fugir ao dilatador. Não seria saudável… Tenho de assumir a minha realidade… Há mulheres com períodos mais longos do que a média e elas têm de lidar com tampões e toalhas absorventes, não é? Eu, que não tenho o período e nunca vou ter, tenho de me habituar ao meu dilatador da mesma forma que outras mulheres se habituam a outras coisas naturais e características do tipo de mulher que são.

Suponho que esse dilatador está a dizer-me a cada dia que sou diferente. Ainda que tenha dias em que volto àquela fase adolescente de me querer esconder nas sombras, também é uma recordação, essa tatuagem que gostaria de levar na pele de “mulher-orquídea”, com orgulho. E então ouço na minha cabeça essa frase de Alice no País das Maravilhas: “voltar ao ontem não tem utilidade, porque então era uma pessoa diferente”. Embora seja verdade que não podemos viver indefinidamente no passado, eu sou dessas pessoas a acreditarem que o ponto de partida nos ajuda a fazer compreender melhor o caminho que já temos percorrido até chegar ao lugar atual em que nos encontramos e, além de tudo, poder sentirmo-nos orgulhosas da nossa evolução. Por isso, continuo a me emocionar quando penso naquela rapariga assustada e perdida que se pensava incapaz de aderir ao mundo e que agora, muito pelo contrário, luta por ajudar aquelas mulheres com medo a voarem ao compasso do vento. Com falhas, virtudes, defeitos ou características congénitas como a minha, todas as mulheres somos igual de válidas.

Teria gostado de poder tomar um café com a Ana do passado ou, simplesmente, ter-lhe dado um abraço e sussurrar ao ouvido: “Tudo vai correr bem, tem paciência”. Por isso é que decidi romper o silencio e com as minhas palavras e as vozes de outras pessoas a se somarem à minha, normalizar algo que na realidade deveria ser visto com naturalidade. Rokitansky, evidentemente, suscita problemas, mas tem solução e seria muito mais fácil lidar com algo assim com a compreensão das pessoas que rodeiam cada nova mulher diagnosticada. Porque, de qualquer forma, as orquídeas somos igual de bonitas que as rosas do jardim, não é?

Se és uma mulher Rokitansky como eu, não hesites em me escrever. Já não estás sozinha. A partir deste momento, tens o apoio incondicional de uma irmã de luta com vontade de te ajudar. Se és uma pessoa que acaba de descobrir a existência da Síndrome de Rokitansly e desejas ter mais informações, também podes contatar-me e resolverei qualquer dúvida ou curiosidade. Não tenhas medo de me fazer perguntas por achares que me vais incomodar ou magoar, está à vontade.

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