por Uma Lopes

Comecei pensando na estética da representaçom, através dos filtros para fotografias, e rematei pensando que a comunidade é um oceano, e a mátria é umha trincheira que paga a pena.

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A pele: A política dos filtros

Nom me puidem resistir a experimentar com a faceapp para ver umha hipótese de como seria a minha cara com algumhas décadas enriba. Também experimentei a provar a opçom que fai mudança de gênero: eis a minha cara de homem. Foi engraçado. Depois reparei que para a construçom da imagem cara o masculino a pele tinha sido escurecida. E no filtro que transformava cara o feminino a minha cara tinha sido blanqueada e ainda, os traços afinados. Está a ideia da feminidade alicerçada esteticamente na branquitude caucásica?
Ainda experimentei alguns filtros mais do instagram, quase todos os que procuram um “embelezamento” afinam o meu nariz e estreitam a minha mandíbula, apagam a textura da pele e colocam maquilhagem nos meus olhos.

Quando fago retratos a mulheres dou voltas à ideia de como representar-nos, reflexiono com as minhas retratadas. Entendemos dumha maneira intuitiva que queremos aproximar-nos à ideia de beleza, num sentido amplo, alargado, abstrato: procurar certa harmonia, identificaçom com a natureza, e o prazer do reconhecimento.

É para mim um exercício de funambulismo trabalhar fazendo retratos a mulheres. Som ciente do ocularcentrismo da nossa sociedade, e valorizo a achega de conhecimento e beleza através de outros sentidos. Mas nego-me a renunciar ao uso da fotografia, e à apropriaçom do código visual, ainda que tenhamos que caminhar fazendo equilibrismos nesta corda bamba; a câmara também pode ser nossa. O espaço da representaçom é mais um campo de batalha, o processo entre a expresom plástica do que entendemos como bonito, e o alargamento do marco, a incorporaçom da diversidade e até dos estigmas, de umha imensa amálgama de corpos e texturas que ficarom longe do modelo hegemónico do belo. Um modelo pouco inocente, com um impacto devastador para a autopercepçom da maioria das mulheres e alicerce da indústria multimilionária da cosmética e a estética. Qual é a nossa responsabilidade com o visual? Qual a nossa estratégia? Surgem-me todas as perguntas: Quem fazemos fotos? Que fotos fazemos? Como? Para que? Para quem?

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A água

Nom gosto de falar de “mulheres reais”, porque acho que todas o somos, também a modelo que se ajusta e vence nos concursos de misses. Mas a beleza é muito mais, pode ser de todas. Para isto algumhas teremos que dar um passo atrás, deixar espaço para as menos visíveis. Podemos permitir-nos as máscaras e os desnudos, para atopar tantos “eus” que tem cada umha. E parece-me boa referência a água, a fluidez que nos permite adaptar-nos, deixar passar, renovar, rebentar contra os cons, ir e vir com as marés, respeitar os movimentos ondulantes impostos pola lua. Estar deliciosamente aluadas. E sentir essa força conjunta, de sermos tantos milhons de gotas. Esse contexto fluido que tem sentido como conjunto, um oceano lilás, para fugir das comparativas entre corpos e traços faciais. Ainda permitir a fantasia, ver formas distintas nas ondas, sons, transformar-nos em sereias, viver juntas numha ilha de mamíferas marinhas, cantando e mergulhando no mar.

A água é contrária a todas as hierarquias, e na maré que somos concentra-se a emoçom indescritível de perceber o nosso potencial atlántico, juntas, a droga dura de cantar com centos de companheiras, de subir as maos e desenhar um triángulo no ar. Eis a máxima expressom do amor.

Desfrutamos e podemos aproveitar para o político o território acuoso. Mas também temos precauçons, porque nos nutrem as leituras, as assembleias, o processo de escuita. E frente as dinámicas que nos movem cara a sociedade líquida – entendida como a dissoluçom da comunidade, a ausência de compromissos sólidos e vínculos fortes – temos nós muita terra.

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A terra

Foi umha falácia do capitalismo individualista fazer-nos crer que o que nos fai mais especiais é o que nos distingue das outras pessoas; polo contrário, é precisamente o que temos em comum com as demais, a nossa identidade coletiva, a nossa maior fonte de poder. É aí onde um traço qualquer, se fai político, este sotaque, esta cor da pele, esta resposta emocional.
Os vínculos numha sociedade globalizada conetam-nos com pessoas que podem viver em outra cultura, em outro território, na outra ponta do mundo. E isso tem muito potencial, para tecer redes de solidariedade e aprendizagem mútua, mas, quem mora na porta do lado? Nom escolhemos onde nascer e as discrepáncias podem ser radicais, com alguém com quem apenas partilhamos viver na mesma vila, na mesma cidade. Mas a necessidade de gestom sobre o que afeta ao território e à comunidade da que fazemos parte obriga-nos à coparticipaçom, isto é nosso. Galiza somos nós. Aqui começa a minha identidade coletiva, com as pessoas que moram neste território, as que estavam, as que chegam, as que virám. Como dizia aquela bruxa: “soas nom podemos, com amigas si”. É um exercício de sororidade, responsabilidade política e alicerce de qualquer processo emancipatório começar polo local, conhecer-nos e reconhecer-nos coletivamente, sociologicamente, culturalmente, para poder representar-nos e comunicar-nos em pé de igualdade com as demais, sem oprimir ninguém, sem deixar-nos oprimir por ninguém. Por isso considero que Galiza deve deixar de estar sob os mandatos da administraçom jurídico-política com sede em Madrid. Para sermos livres, como indivíduas e comunidade, precisamos treino: praticar a postura da dignidade, exercitar propostas anticapitalistas, reconhecer e deconstruir os nossos privilégios e deixar falar as irmás em posiçons mais subalternas. Também, cuidar da nossa pele, das nossas escamas, trabalhar o autorretrato e ter as unhas de gel afiadas, para o que faga falta. 

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Uma Lopes

Eu sou Charo, uma qualquer. Estudei jornalismo na USC, fotografia na ESAD Antonio Faílde e um mestrado de literatura na UDC. Som independentista galega. Pago a quota de autónoma e fago retratos a mulheres. Também coordeno a imagem no Novas da Galiza e faço parte da caleidoscopica.gal

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