de Nerea López Campaña

Nos relatos galegos decorre um facto diferencial salientável: em uma parte importante dos mitos relacionados com os lobisomens, os protagonistas não são homens-lobo, mas mulheres-lobo, isto é, lobismulheres. São mulheres transformadas por algum facto concreto, normalmente porque elas se revoltam contra um sistema patriarcal que as oprime. Do ponto de vista simbólico, pedem mais comida, mais carne, mais alimentos e não apenas por causa da fome, mas também para reivindicarem o seu espaço na sociedade galega. Na antologia Lobos, lobas e lobishomes compilada por Xosé Ramón Mariño Ferro, podemos encontrar o relato intitulado «O lobishome no sequeiro». Nele, o lobisomem é o arquetípico «lobo da gente» de Vicente Risco.

Este «ecomito» surge da perspetiva ecofeminista, pois pode ser entendido através das relações entre ecologia e feminismo com o intuito de se afastar da dominação patriarcal imposta sobre as mulheres e a natureza. Desde a década de 1970, as correntes feministas começam a reformular a valoração da mulher ligada à natureza e são atribuídos novos paradigmas sociais, tais como a oposição da agressividade masculina a respeito do seu meio natural face à ética feminina do cuidado que origina a esperança para a conservação da vida humana. Portanto, por meio do ecofeminismo, não somente é subvertido o controlo homem-mulher, mas também o humano-natureza.

A protagonista do relato anterior é uma «moza de pel branca, e de cabelo solto e longo deica a cintura, moi fermosa» (Mariño Ferro 2001: 60). Esta rapariga é vítima da fada que a sua mãe lhe impõe: «Vaite da casa, mala muller! ¡Mala filla! ¡Loba! Permita Deus que te volvas loba e que como os lobos andes arrastrada polo monte» (Mariño Ferro 2001: 61). Na passagem citada são refletidas duas questões muito importantes. Por um lado, observemos a conotação negativa da alcunha «loba», que desvenda um significado heteropatriarcal por referenciar uma mulher de atributos estéticos favoráveis e, aparentemente, de vida dissoluta. Por outro lado, cumpre considerar a revolta da moça contra a opressão do sistema dominante.

A lobismuller ficou órfã de pai quando miúda. A sua mãe casou-se novamente com um homem quem, enquanto a filha era ainda criança, ignorava-a, mas, ao ela crescer, segundo a própria moça-narradora diz, «acabou dándome a min máis agarimos que a mi madre» (Mariño Ferro 2001: 60). A tentativa de violação acabou por fracassar, pois a rapariga foi muito corajosa conseguindo escapulir-se do agressor após cortar-lhe uma mão com uma foice. A progenitora, mais do que uma mãe, actua como bruxa, infligindo a mencionada maldição de tornar a sua própria filha em loba. Dessa maneira, estabelece-se, assim, uma relação entre uma personagem dominante, ou uma opressora, a mãe, e uma personagem oprimida, a moça, que não sofre apenas uma violação dos seus direitos, mas, na realidade, duas: uma por parte de quem a violou, e outra por parte da sua mãe ao recusar o direito da filha à verdade.

Do ponto de vista ecofeminista, podem ser notadas as contraposições homem/mulher e humano/animal. Mas, como é típico das lobismulheres galegas, esta relação entre humana e animal não se compreende do enfoque da agressividade comum do lobisomem masculino, sendo que, esta «loba» é uma vítima amável e grata, manifestamente dorida pela fada que não queria nem escolheu ter. Cumpre esclarecer um dado que pode passar despercebido: a rejeição acontece contra a fada imposta pela mãe, mas não contra a sua condição de loba, que, de facto, é considerada com certo apreço, tal como a seguinte sentença revela: «¡Váleme, a miña pel querida! (Mariño Ferro 2001: 60). Se calhar, os choros da rapariga não só se justifiquem na sua condição híbrida; é claro que a dor emocional pode ser ainda mais forte do que a dor física ao sentir queimar-se a sua pelica.

Além disso, é sabido que são as caraterísticas físicas do lobo que costumam enquadrá-lo dentro do papel demoníaco. Porém, como foi demonstrado no parágrafo anterior, essa natureza demoníaca não aparece em nenhuma parte do relato. Adjetivos como «de pegadas grandísimas e invulnerable ós tiros […] pata descomunal, negra e arrepiante. […] un fuciño longo, de grandes dentes blancos, […] tan peludo» (Mariño Ferro 2001: 60-61) permitem atribuir —através da introdução do medo na sociedade— significados e simbolismos negativos ao lobo. As primeiras leituras antropocêntricas colocam o lobo como um animal esteticamente «arrepiante» e a humana como uma mulher «formosa», mas se tivermos em conta a visão ecofeminista, isto pode representar uma crítica muito direta à pressão que sofrem as mulheres e os animais pelo facto de possuírem—ou não— determinadas caraterísticas físicas consideradas como favoráveis ou desfavoráveis pelos códigos heteropatriarcais e antropológicos. Desta forma, as visões que apontam para o lobo como sendo um animal negativo são reforçadas pelo sentimento de medo e fobia social e por uma sensação de frustração como pano de fundo, devido à incapacidade dos seres humanos para exercerem um domínio completo sobre ele e sobre o género feminino.

As peeiras ou fadas dos lobos eram as mulheres que defendiam e acompanhavam os lobos. São a expressão de uma visão muito mais cordial do animal. Costumam transformar-se em lobas quer por uma maldição materna ou paterna, quer por terem nascido a sétima filha de um casal. Assim o demonstram as narrações «A pieira de Cotobade», «A maldita comedora de carne» ou «A Lobeira de Moraña», coligidas em Lobos, lobas e lobishomes, de Mariño Ferro. A obra é acrescentada com a conhecida bandoleira «Pepa a loba», que faz parte do imaginário compostelano. A rainha Lupa, Luca, Lopa, Loba ou Luparia foi a mulher que acolheu no seu castelo lupário, localizado em Teu, os restos do Apóstolo Santiago e, embora fosse parcialmente obrigada, segundo conta o Liber Sancti Jacobi, ajudou na construção do seu sepulcro. No libro de Mariño Ferro podem ser encontrados vários relatos como, por exemplo, «Lupa e o Apóstolo», «A Raíña Loba en Figueirós» ou «Lupa no Pico Sacro», que representam, algumas vezes, o protótipo de mulher vingativa e sanguinária e, outras vezes, o arquétipo de salvadoras dos pobres.

Definitivamente, a lobismulher pode ser percebida de muitos modos. Porém, a maioria não pode ser explicada de uma única maneira. Como comprovámos, costuma expressar várias metáforas e simbolismos que podem ser compreendidos como uma tentativa de ensinar ou reeducar a sociedade patriarcal, além de ter bem presente o espaço natural e tratá-lo de um ponto de vista ético e sustentável. Este tipo de relato manifesta a necessidade de quebrar com as velhas conceções patriarcais que, ainda atualmente e infelizmente, continuam a dominar. Mas nós não esquecemos a nossa natureza selvagem, tão só temos de deixar que a nossa lobismulher emirja do mais profundo do nosso ser.

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NIMG_0328ada en Compostela un 28 de Febreiro do ano 91. Reconciliada laboralmente cos números, pero nunha relación seria (e de serie) coa filoloxia e a literatura, especialmente galegas. Membro do Laboratorio Galego de Ecocrítica dende o 2017, ano no que nace toda esta andaina de querer prestar a miña voz (que non falar por ninguén) a todo aquel, humano-animal ou animal-non humano, que foi ou é silenciado.

Algunhas das liñas de investigación coas que traballo actualmente son a ecomitoloxía, o ecofeminismo e o hibridismo antropomórfico.