por Xacia Ceive

As transfóbicas adoram exigir que as mulheres trans (porque as transfóbicas estám, em grande medida, obcedadas com as mulheres trans — como todo o mundo…) respondamos à pergunta “o que significa mulheres?” Se nom podemos reduzir as mulheres aos seus genitais, que mais somos? Perguntam-nos, como se todas as mulheres trans do mundo fossem filósofas e nom apenas mais umhas mulheres tentando sobreviver num mundo bem sexista e transfóbico.

Nom sei se precisamos ter respostas para todos os grandes conceitos, tipo “o que é um rio? a justiça? o amor? um país?”, ou vam ficar contentes se lhes damos uma resposta completa do que significa o termo mulheres.

Eu nom som filósofa profissional, mas, enquanto mulher trans, seica tenho que ter resposta a esta pergunta. Nom, claro que nom é justo exigir-me umha resposta, mas a verdade é que se nom o fago eu, vam ser as pessoas cis, da sua alta posiçom dominante — com todas as fraquezas que isto envolve —, as que se sintam legitimadas para nos definir. É outro micro-cissexismo presupormos que, além de “permitir” as mulheres trans estarem na comunidade de mulheres,

continuam sendo as mulheres cis as que tenham o direito natural para fazer as definições e falar polas mulheres em geral.

Nom vamos derrubar o cissexismo até nom reconhecermos que o caminho para a maioridade feminina das mulheres trans passa por um relacionamento de igual para igual com as mulheres cis; e que as mulheres cis nom podem exprimir umha definiçom de mulheres sem consultar e elevar a voz imprescindível das mulheres trans. 

No meu ultimo artigo na Revirada rejeitei, por falta de tempo e espaço, responder bem a umha definiçom de mulheres oferecida por um grupo de mulheres cis. Agora é o momento de mergulhar nessas augas.

Ser mulher nom é um sentimento — assim declaram as transfóbicas, convencidas de vencerem o argumento.

Pois eu também declaro que ser mulher nom é um sentimento. O convencimento é um sentimento, e também a raiva, a alegria, o medo, a insegurança, a ansiedade, a frustraçom, a ternura… Todos estes som sentimentos, mas a justiça, o rio ou a mulher, nom. O sossego e o desassossego som; o rio Sil, nom.

O que é que é o rio Sil? Se eliminarmos o líquido que o percorre já nom teríamos um rio, apenas um leito seco. É entom a auga? Aginha esta auga que identificamos como “o rio” vai passar a ser a auga do Minho e depois do mar, das chuvas, das neves… e de novo do Sil. É possível que, quando eu for levada ao mar — na minha morte — e me erga de novo nas chuvas, voltarei noutra forma, noutro rio… mas nesta vida estou no rio em que estou: som mulher e moro a carom do Sil.

Quando um ázio de uvas da beira do rio cai e mistura o seu líquido com as augas do Sil, umha gota de açúcar que se junta ao fluir. Umha transfóbica diria que esta pinga doce nom fai parte do rio. Diria que um rio só é H2O e para termos o rio puro teríamos que fazer um processo químico para separar todos os elementos diversos que naturalmente formam parte dele. Nom quero falar mais de transfóbicas. Nom merecem a minha energia. Umha grande quantidade de H2O nom vai ficar “apagada” por incluir umhas poucas gotinhas de açúcar. 

Vamos tentar construir umha proposta de definiçom do conceito de mulheres que procure evitar a violência cissexista. 

Primeiro, vamos analisar a definiçom oferecida muitas vezes polas mulheres cis, em resposta à existência de mulheres trans, que tenta incluir-nos em mulheres sem incluir a nossa voz. A definiçom que quero deixar atrás é esta:

“Poderíamos aventurar-nos a afirmar que nós somos já só umha comunidade afetiva; umha coletividade unida inexoravelmente por umha trágica laçada de subordinaçom, violência, terror, sofrimento e raiva.”

O problema com definir mulheres pola violência que sofremos é que nom oferece umha verdadeira definiçom. Umha pessoa nom-binária que é, nos olhos do mundo cissexista, vista como umha mulher sofre as mesmas violências que umha mulher cis — mesmo seria mais umha violência cissexista incluir esta pessoa na definiçom de mulheres. Nom estamos unificadas polas violências que sofremos como coletivo. O coletivo tem que preexistir dalguma forma para sofrer tais violências.

Nom som trans porque exista transfobia; e seria bastante insultante sugerir que sim.

O rio Sil nom existe só porque seja violentado o seu percurso com encoros, mesmo que as violências dos embalses contribuam para condicionar como corre o rio. As violências criam a situaçom material que temos que navegar, mas nom nos definem.

Reconhecermos que somos mais do que as violências que sofremos permite-nos um pouquinho de espaço para celebrar sermos mulheres. O espaço de auto-criaçom. De alegria. De ser contestadoras extasiadas e nom apenas ficar na defensiva, num mundo escuro, definidas só pola opressom. 

Quero oferecer algumas possibilidades. Mulher nom é um sentimento, mas a comunidade de mulheres existe porque existem os sentimentos. Existimos como umha comunidade, porque nos sentimos  cómodas fazendo parte desta comunidade. Assim, a primeira definiçom que ofereço é: mulheres som todas as pessoas que se sentem assossegadas no coletivo de mulheres. 

Recentemente, numa juntança feminista em Ourense, falávamos de sexo, de género e de mulheres, e havia mulheres — cis e trans — que afirmárom sentir um forte sossego polo facto de formarem parte do coletivo diverso de mulheres. E havia outras mulheres — cis —, que se identificam dentro do coletivo de mulheres por motivos políticos (por causa da violência que sofremos), que declarárom nom entender tal sossego. Na nossa primeira definiçom, baseada numha afirmaçom positiva, estas ultimas nom fariam parte de mulheres. Seriam algo como mulheres políticas. Se calhar, precisamos umha definiçom que inclua também estas mulheres.

A pergunta chave é: se nom queremos gerar violências contra o coletivo trans, que importância têm estas perguntas filosóficas? Porque perguntam? Medo? De o rio evaporar? Ver o açúcar nas augas nom apaga a necessidade de luitarmos todas juntas contra as dificuldades e violências que enfrentamos.

Eis umha segunda possibilidade: mulheres som todas aquelas pessoas que nom sentem desassossego por formar parte do coletivo de mulheres. Esta definiçom criaria umha comunidade mais ampla e diversa: há espaço para as mulheres que nom tenham sentimentos fortes de sossego nem desassossego por fazerem parte do rio.  Um problema com esta definiçom é que existem homens cis — desconstruídos — que ficariam incluídos: é um privilegio cis nom se importar com como as outras pessoas te identifiquem. Diriam que nom se incomodam por serem identificados como mulheres e nunca saberemos se sentiriam esta mesma apatia se fossem forçados, violentamente, a estar na categoria feminina desde pequenos, como os homens trans. E se a segunda definiçom é aberta demais ao incluir todas as pessoas cis que acreditam nom se importarem com o sexo-género?

Chegamos à definiçom mais simples de todas: mulheres som todas as pessoas que afirmam que som mulheres. Obviamente, as definições simples nom vam contentar as transfóbicas, mas, sendo honestas, nada o fará. Historicamente resistiram-se a definir mulheres polos seus genitais até que decidírom tentar tirar todas as gotas doces do rio.

Penso que é interessante reconhecer que a espinha dorsal do coletivo de mulheres som as da primeira definiçom: nós que reconhecemos, com o sossego de estarmos juntas, a alegria de criar em comunidade o que é sermos mulheres. Se calhar, nom é umha definiçom absoluta, mas contém uma certeza importante e, provavelmente, mostra a evoluçom histórica da tendência de nos agruparmos em termos de sexo-género.

Porque tenho que responder? Acho que estou gastando a minha energia e tempo em absurdidades. Entom, se me perguntas o que é mulheres, eu digo-cho: somos o rio. Somos a auga e o açúcar e o azeite que fluem juntas para o mar. Somos o sal do mar. Somos a chuva. Somos o céu. Somos a neve. Que mais queres?

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Xacia_fotoXácia Ceive 

Organizadora de Sete Outeiros, trans feminista, presidenta de FEMforte, mulher da floresta. 

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